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Governança no mercado voluntário de carbono: a infraestrutura invisível que sustenta a credibilidade do ecossistema

A redação convidou o especialista em estratégia de investimentos Rogério Araújo a analisar o tema. A seguir, compartilhamos um artigo assinado pelo executivo, no qual ele apresenta sua visão sobre os desafios, riscos e oportunidades que envolvem o cenário atual do mercado.

Mais do que volume de créditos, o futuro do mercado voluntário de carbono depende da solidez de sua arquitetura institucional

O mercado voluntário de carbono avança em ritmo acelerado, impulsionado pelo aumento da pressão climática, pelo interesse crescente de empresas e investidores e pela sofisticação das estruturas financeiras associadas a ativos ambientais. Esse crescimento, no entanto, expõe uma fragilidade central: a capacidade institucional do próprio ecossistema de se organizar com clareza, disciplina e responsabilidade.

Projetos se multiplicam, intermediários surgem, mecanismos de financiamento são estruturados, muitas vezes antes que exista uma base sólida de governança capaz de sustentar a credibilidade do sistema. O ponto crítico, portanto, não está no volume de créditos emitidos, mas na arquitetura institucional que garante sua legitimidade.

Diferentemente dos mercados financeiros tradicionais, o mercado voluntário de carbono não nasceu a partir de uma regulação centralizada. Ele emergiu da convergência entre ciência climática, pressão reputacional corporativa e inovação financeira. Embora legítimo, esse processo produziu um efeito colateral relevante: ativos ambientais passaram a circular antes da consolidação de mecanismos robustos de rastreabilidade, integridade e accountability.

As consequências são amplamente conhecidas. Persistem dúvidas sobre adicionalidade, questionamentos sobre a permanência dos projetos, conflitos de interesse entre desenvolvedores, validadores e compradores, além de dificuldades de padronização metodológica. Em mercados maduros, esses desafios são tratados como riscos estruturais e mitigados por regras claras, auditorias contínuas e responsabilização formal. No mercado voluntário de carbono, ainda são frequentemente tratados como exceções operacionais, quando, na realidade, refletem lacunas institucionais.

Tratar a governança como um obstáculo ao crescimento é um erro conceitual. Governança é infraestrutura. Ela define quem decide, como decide, quais riscos são assumidos, como são monitorados e quem responde por falhas. Sem essa base, não existe mercado funcional no longo prazo.

No contexto do carbono voluntário, governança implica, no mínimo, clareza de papéis entre originadores, estruturadores, compradores e custodiante do ativo; separação efetiva entre quem mede, quem valida, quem financia e quem comercializa; processos formais de auditoria técnica, jurídica e financeira; transparência documental que permita rastrear o crédito desde a origem até sua aposentadoria; e mecanismos estruturados de gestão de risco reputacional, ambiental e regulatório.

Não se trata de criar camadas artificiais de controle, mas de reconhecer que o carbono é, simultaneamente, um ativo ambiental, financeiro e institucional. Mercados não se consolidam apenas por ação regulatória ou pela entrada de grandes compradores. Eles se consolidam quando surgem agentes dispostos a construir padrões, mesmo na ausência de obrigação formal.

No mercado voluntário de carbono, isso significa recusar estruturas opacas, evitar simplificações excessivas e aceitar que nem todo projeto é elegível, nem todo crédito é equivalente, nem toda solução é escalável sem ajustes institucionais. A governança, nesse sentido, não representa um freio, mas um compromisso com a longevidade do mercado.

O setor caminha inevitavelmente para maior escrutínio, seja por pressão regulatória, por exigência de investidores institucionais ou por demandas crescentes de compliance corporativo. Aqueles que já operam com processos, disciplina e governança não perceberão esse movimento como ruptura, mas como convergência.

O debate relevante, portanto, não é se a governança será exigida, mas quem está disposto a construí-la antes que ela seja imposta. A credibilidade do mercado voluntário de carbono dependerá menos do discurso climático e mais da solidez de sua arquitetura institucional.

Governança não gera manchetes fáceis. Não acelera ciclos de venda. Não cria narrativas simplificadas. Mas é ela que define se o mercado de carbono será um instrumento duradouro de transição econômica ou apenas mais uma promessa incapaz de se sustentar no tempo.

Rogério Araújo é CEO da Premium Roar Ltda, economista, gestor financeiro e especialista em estratégia de investimentos. Com mais de três décadas de atuação no mercado financeiro, lidera projetos voltados à estruturação de ativos, educação financeira e soluções estratégicas para investidores e empresas, unindo visão de longo prazo, disciplina institucional e foco em performance sustentável.

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