Quando a família de Nelza se mudou para uma fazenda experimental em Pindorama, no interior de São Paulo, a menina, ainda com oito anos, descobriu a paixão pelos estudos e também pelo cinema.
O pai, ferreiro, produzia as ferramentas usadas na unidade vinculada ao governo de São Paulo, destinada a pesquisas agrícolas com café, laranja e outras culturas. Além da escola e das brincadeiras, a diversão era assistir aos filmes exibidos no local.
Criada também pelos avós portugueses, aprendeu a falar a língua segundo as regras do outro lado do Atlântico e preservou a atenção com a pronúncia e a gramática, diz a filha, Ana Lúcia Soares, 66.
Depois de a família se mudar para Catanduva, Nelza começou a trabalhar em uma fábrica de camisas masculinas, aprimorando as habilidades de costura, depois usadas também para as roupas da família, dos pequenos reparos aos enxovais inteiros.
Conheceu o marido, Zuarte Bernardo Soares, ainda na fazenda, quando ambos eram crianças. Falecido em 2019, ele chegou a ser reconhecido na região como jogador de futebol. Casaram-se em meados dos anos 1950 e tiveram Ana Lúcia e Antonio Sergio Soares, 64.
Nelza tinha sempre por perto um jogo de palavras-cruzadas. Ela estudou até a antiga quarta série (atual quinto ano), já que morava na fazenda e a família não tinha condições de mandá-la a Catanduva para continuar com os estudos.
Durante a educação dos filhos, também aproveitava para manter a educação em prática. “Ela passava roupa à noite enquanto a gente fazia as tarefas. E aí ela fazia a minha. Depois de descobrirem, as professoras diziam ‘parabéns à dona Nelza, tirou dez’”, lembra Ana Lúcia.
E embora Antonio Sergio fosse mais arteiro, sabia dos limites. “Ela defendia a gente de tudo, mas se ficasse braba, vixe. Se eu pulasse a janela, não adiantava, ela falava ‘volta aqui’, e a palavra era a lei”, diz ele.
Os netos, Angélica Zago, 39, e Enrique Zago, 34, filhos de Ana Lúcia, não têm dúvidas sobre a preferência entre os muitos talentos da avó na cozinha. “Bolo, esfirra e coxinha”, diz Enrique, sem titubear. “Fez o bolo do meu casamento”, afirma Angélica, que também escolheu Nelza para levar, junto com Zuarte, as alianças durante a cerimônia.
Na memória dos filhos está a voz poderosa da mãe ecoando durante as procissões para Nossa Senhora, uma das inúmeras atividades dedicadas à igreja. E também lembram, apesar do som grave, de Nelza chegando aos tons mais altos da canção “Índia”, na interpretação da dupla Cascatinha e Inhana, sucesso nas festas de Natal. Os dias inteiros, dizem Ana Lúcia e Antonio Sergio, eram embalados pelas músicas do rádio, que ela também acompanhava.
Nos últimos anos, Nelza estava com a saúde debilitada, após um câncer no pulmão e um acidente vascular cerebral. Ela morreu em 21 de dezembro, aos 89 anos. Deixa os filhos e os netos.
coluna.obituario@grupofolha.com.br
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Fonte UOL
