Quatro adultos sentam-se em uma sala e começam a resolver diplomaticamente uma briga de escola entre seus filhos. A abertura de “O Deus da Carnificina”, de Yasmina Reza, parece trivial, mas a produção, dirigida por Rodrigo Portella no Teatro TotalEnergies, subverte sua serenidade inicial ao substituir o realismo de uma sala de estar burguesa por um laboratório de involução social.
O que vemos no palco é a destruição mecânica das regras que criamos para fingir que não somos animais. Esse desmantelamento começa com a rejeição da ilusão. Ao exibir a caixa cênica, expondo as paredes nuas do teatro e a construção técnica das coxias, a direção retira qualquer sensação de segurança ou intimidade.
Os personagens pertencem a algo além de um apartamento; eles vivem em um tablado, praticando uma polidez que sabem ser uma atuação. O chão, coberto com um tapete de grama sintética, é uma fonte de ironia no espaço. A grama artificial evoca a natureza domesticada pelo consumo, mas também lembra uma arena, um pátio de escola, um zoológico onde os sapatos serão removidos e os territórios disputados com unhas e dentes.
A ordem inicial é literalmente deteriorada pelo tempo. O cenário que se abre limpo e meticulosamente organizado é vandalizado por aqueles que usam o espaço por mais de noventa minutos. Em vez da elegante sobremesa francesa que se esperava aqui, o cenário coloca um carrinho de sorvete. A troca é cirúrgica. O picolé infantiliza esses adultos e os nivela à imaturidade das crianças que procuram proteger, e impõe uma propriedade física imutável: o sorvete derrete, escorre e mancha, um testemunho físico do controle emocional que eles tentam desesperadamente manter.
O brilhante quarteto de atores — Karine Teles modulando o colapso com precisão, Thelmo Fernandes quebrando a tensão com cinismo, Ângelo Paes Leme e Anna Sophia Folch mantendo o modo de agressão passiva — opera em atrito constante, fragmentando alianças que mudam de lado a cada gole de uísque.
O último curto-circuito acontece na colisão temporal dos figurinos. O elenco está vestido com roupas impregnadas das restrições do século 19 e apertadas em fraques e espartilhos que sufocam o corpo. Eles também consertam fissuras corporativas globais com seus smartphones. E o anacronismo é o argumento da produção em seu ponto mais forte. Portella argumenta que a tecnologia certamente avança em uma velocidade vertiginosa, mas o código de convivência humana permanece preso em um estado primitivo. O espetáculo nos traz um jogo barulhento e preciso sobre a fragilidade de nossos discursos.
Três perguntas para…
… Karine Teles
Sua personagem é um motor invisível das viradas de tom da peça, transitando entre o controle rígido e o colapso. Como foi o trabalho de calibração milimétrica para que essa transição pareça orgânica e não um salto abrupto para a caricatura?
Tivemos um processo de ensaios muito interessante. Primeiro, passamos algumas semanas debruçados exclusivamente sobre o texto, procurando os movimentos e entendendo as discussões que cada interação entre os personagens possibilitava. Conversamos muito sobre o encadeamento das emoções.
Depois, partimos para a cena e para a delícia produtiva que é errar, errar e errar — o que só é possível em uma sala de ensaio. Sempre tendo em mente o que a gente queria discutir a partir do texto. Agora, em cartaz, seguimos descobrindo coisas a cada dia de apresentação.
A peça exige uma escuta cênica afiadíssima, onde o silêncio e as pausas são tão violentos quanto os diálogos rápidos. Como o quarteto construiu esse tempo de comédia ácida nos ensaios para que o espetáculo funcione com a precisão de um relógio?
O grande desafio e também a parte mais instigante de estar em cena neste espetáculo é justamente o exercício da escuta. Os personagens não se ouvem e a comunicação entre eles vai ficando cada vez mais violenta, exatamente porque todos estão mais preocupados em impor suas ideias.
Isso, contraditória e maravilhosamente, exige de nós quatro que estejamos extremamente presentes e com os ouvidos atentos e afiados para que a partitura dessa enorme discussão possa ser executada.
“O Deus da Carnificina” é um texto de vinte anos atrás que continua cirúrgico ao rir da hipocrisia burguesa. O que você acha que a sua personagem mais revela sobre a fragilidade dos nossos discursos politicamente corretos em 2026?
Acredito que o grande problema da minha personagem é justamente não saber ouvir nada que não seja dito da forma como ela constrói seu próprio pensamento. A meu ver, a Verônica tem alguma coerência e excelentes intenções, mas se perde justamente na arrogância de quem se acha dona da verdade.
No afã de proteger seu filho, ela não percebe que o diálogo (algo que tanto preza) pressupõe escuta; e escutar não é apenas esperar a sua vez de falar, mas sim assimilar o que foi dito, mesmo que venha de um conjunto de noções diferentes das suas.
Esse, a meu ver, é o nosso maior desafio como humanidade: entender que, quando pensamos em melhorar o mundo de maneira ampla e não violenta, as diferenças são muito mais férteis do que perigosas.
Teatro TotalEnergies – rua do Russel, 804 – Glória, Rio de Janeiro. Quinta a sábado, 20h. Domingo, 17h. Até 7/6. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 75 (meia-entrada) em ingresso.com
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Fonte UOL
