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Minha voz nunca será clonada, diz Fernanda Abreu sobre impacto da IA na música

Em turnê global para celebrar os 30 anos do álbum “Da Lata”, a cantora Fernanda Abreu passou por nova Iorque, onde conversou com o Podcast ONU News sobre mudança climática, inteligência artificial, desarmamento e combate ao preconceito.

Lançado em 1996, o álbum “Da Lata”, foi um divisor de águas na vida da cantora, vendendo mais de 100 mil cópias e se tornando um fenômeno internacional. A aposta na mistura de samba com funk foi considerada pioneira e, segundo a artista, ajudou a quebrar o preconceito com o som que vinha das favelas.

Transição na indústria da música

Fernanda Abreu destacou preocupação com novos formatos de distribuição e consumo na era digital, especialmente o uso da inteligência artificial para gerar músicas, um processo que, muitas vezes, se apropria indevidamente da obra e da voz de artistas humanos. 

“Eu, por exemplo, nunca vou assinar um contrato liberando a minha voz para ser clonada para a inteligência artificial fazer, que é uma coisa que também já está na moda. ‘Você quer ganhar um dinheirão clonando sua voz? A Inteligência artificial faz música para sempre com a sua voz.’ Não, obrigada, não quero. Então, eu acho que a gente está no meio desse processo de transição”. 

A cantora lamentou que na era das plataformas de streaming, as pessoas não têm mais a posse física das músicas e podem perder também o acesso a seus artistas favoritos caso eles decidam sair dessas plataformas, por motivos como remuneração injusta.

Um estudo da Organização das Nações Unidas para Educação Ciência e Cultura, Unesco, lançado no começo deste ano, revelou que criadores musicais devem sofrer perdas de 24%, em suas receitas devido à crescente presença de conteúdo gerado por IA. 

Fernanda defendeu a criação de plataformas separadas para obras criadas por inteligência artificial e para músicas de autoria de seres humanos. 

De Rio 40°C para Rio 60°C

Um dos maiores sucessos da cantora, a música “Rio 40°C” foi lançada em 1992, ano em que a cidade do Rio de Janeiro sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92. Foi neste momento que os líderes internacionais passaram a levar mais a sério o enfrentamento das mudanças climáticas. 

A partir dali o refrão dançante da música acabou se tornando uma mensagem de alerta para esta crise planetária. Fernanda contou, que ao encontrar alguns fãs na rua, eles pedem que ela atualize “Rio 40 °C” levando em conta os novos recordes de temperatura na cidade. 

“Qual é o limite que a gente tem que ter esse equilíbrio entre manter a nossa vida na Terra e ao mesmo tempo evoluir enquanto ser humano? Agora a gente tem algumas notícias boas como a gente teve, eu acho que no ano passado, no Brasil, a menor taxa de desmatamento da Amazônia, por exemplo, é uma coisa importante. Eu acho que algumas empresas também já trabalham com plantar árvores e reposição de carbono. Eu acho que isso é uma coisa que a gente tem que ficar o tempo todo ligado mesmo. Mas em relação ao Rio 40°C, realmente no Rio de Janeiro, no verão, quando eu passo na rua as pessoas falam:  Fernanda tem que atualizar. Depende do dia, pra Rio 50°C, pra Rio 60°C”.

No ano de 2024, declarado pela Organização Meteorológica Mundial como o mais quente já registrado, alguns locais do Rio de Janeiro bateram um novo recorde temperatura, de 62,3°C. 

A cantora e compositora destacou a preocupação com a sobrevivência humana no planeta em meio a verões com temperaturas cada vez mais altas e invernos com nevascas mais rigorosas. Ela adicionou que as pessoas também devem ficar alertas para a quantidade de água necessária para a produção de inteligência artificial.

OMM/Bruno Ipiranga
Sol na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro.

Eliminação das armas de fogo

Para a artista e cidadã Fernanda Abreu, outros temas tratados na música “Rio 40°C” permanecem atuais e reforçam a necessidade por ações de desarmamento. 

“É uma música interessante, ela foi escrita 34 anos atrás, em 92, e a letra dela ainda fala de coisas atuais. ‘O Rio é uma cidade de cidades misturadas, com governos misturados, camuflados, paralelos, sorrateiros, ocultando o comando. Comando de comando’. É o que a gente está vendo hoje como grande debate do Rio de Janeiro, a segurança pública, que é a questão das facções criminosas, da milícia, do tráfico de drogas, dessa questão territorial, do domínio territorial”.

Fernanda disse que em qualquer cidade do mundo a violência está necessariamente ligada com armamento e declarou ser favorável à eliminação total das armas de fogo no mundo. 

Encontro emocionante com crianças e jovens

A cantora explicou que seu trabalho sempre buscou fundir estilos e conectar diferentes camadas da sociedade através da música, servindo como “ponte entre o morro e o asfalto”.

Ela realiza diversas apresentações e ações em áreas periféricas, incluindo a criação de uma biblioteca que leva seu nome no Morro do Faz Quem Quer e uma sala de balé clássico numa comunidade do Engenho Novo. 

No ano passado, Fernanda foi homenageada na 3ª Edição do Projeto “Poesia Viva”, na Escola Municipal das Nações Unidas no bairro de Bangu. 

Fernanda Abreu/Arquivo pessoal
Cantora Fernanda Abreu visita alunos da Escola Municipal das Nações Unidas em Bangu, Rio de Janeiro, no marco do projeto Poesia Viva.

Os alunos mergulharam no universo musical da cantora e fizeram uma apresentação para ela. A cantora relatou que a experiência foi emocionante, porque os jovens escolheram uma música “inusitada” chamada “Antídoto”, que ela fez quando perdeu a mãe. 

Fernanda Abreu se apresentou nos Estados Unidos e segue com muitos shows na agenda para este ano e a divulgação do documentário comemorativo “Da Lata 30 anos” a todo vapor. 

Ela comemorou que a musicalidade do disco segue até hoje muito inovadora e conquistando novos públicos. 

*Felipe de Carvalho é jornalista da ONU News.



Fonte ONU

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