Turistas com mais de 50 anos têm procurado viagens personalizadas. Com mais tempo disponível, sobretudo após a aposentadoria, esse público aproveita a baixa temporada e prioriza conforto e segurança.
O Brasil tem 62 milhões de pessoas com mais de 50 anos, o equivalente a 28,5% da população do país, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esse grupo movimenta R$ 1,8 trilhão por ano em consumo, valor que pode chegar a R$ 3,8 trilhões em 2044, aponta o estudo Mercado Prateado, do data8, centro de pesquisa especializado em longevidade, publicado em 2025.
Segundo a pesquisa do data8 “Turismo 60+: o Brasil que viaja depois dos 60”, feita entre março e abril de 2026, 52% dos entrevistados disseram fazer ao menos três viagens anuais, e 34% afirmaram gastar, no mínimo, R$ 10 mil por ano com lazer. O estudo foi apoiado pelo Ministério do Turismo e idealizado pelo Fórum de Turismo Expo 60+.
Os interesses desse público não são todos iguais, afirma Dimas Moura, 68. Ex-profissional de marketing, Moura transformou o hobby de viajar em uma nova carreira como influenciador digital e empresário, e fundou há dois anos uma agência voltada para quem tem acima de 50 anos. Moura conta que conhece 50 países, todos os estados brasileiros, além de 400 cidades.
Segundo Moura, muitos já visitaram os principais roteiros nacionais e internacionais. Entre as experiências procuradas estão intercâmbios que permitam aprender inglês ou italiano suficiente para ter experiências gastronômicas, visitar vinícolas e explorar cidades no exterior.
Para Moura, a infraestrutura do setor tem evoluído para atender esse público, com quartos térreos adaptados, suportes de segurança em banheiros e pisos antiderrapantes, mas é preciso melhorar os roteiros. “É um grande erro pegar a mesma coisa que você oferece para adultos e entregar para um idoso.”
Ana Carolina Medeiros, presidente da Abav (Associação Brasileira de Agências de Viagens), diz que o setor tem deixado para trás pacotes padronizados. “A gente não faz mais aquela viagem com o transfer do aeroporto para o hotel, um city tour e pronto. Hoje as pessoas querem vivenciar o destino.” Também é alta a procura por pacotes completos, com aéreo, transfer, passeios e seguro-saúde. “É um público responsável com as finanças, mas que pensa: já trabalhei bastante, agora vou curtir”, diz.
O ritmo também importa. Moura lembra que preencheu cada minuto com atividades na primeira excursão que organizou, mas recebeu uma avaliação inesperada. “Você quase matou a gente. Sabe o que a gente quer? Que você faça um passeio de manhã e à tarde deixe a gente quieto.”
Agências especializadas oferecem o chamado “slow travel”, para quem quer passear sem pressa, além de cuidar da escolha dos horários de voos e transportes terrestres até de seguros de saúde com cobertura para doenças preexistentes. “Não podemos tirar um seguro só para vender o pacote. A preocupação com o bem-estar é um fator decisivo”, diz a presidente da Abav, que vê um processo de atualização constante nas agências.
Segundo a fundadora da Expo Fórum de Turismo 60+, Ana Carolina Kuwabara, esse mercado está em plena expansão e interessado em se especializar. “Essa geração com 50, 60 anos ou mais tem muito mais qualidade de vida, saúde e disposição”, afirma.
O turista valoriza roteiros detalhados, impressos e o suporte de agentes que “peguem pela mão”. Para Ana Carolina Kuwabara, as marcas precisam abandonar estereótipos, pois esse público busca desde aventura a destinos históricos.
O sucesso também depende do atendimento humanizado e da infraestrutura: 74% dos entrevistados pelo data8 não sentem que as viagens são pensadas para sua faixa etária.
O estudo, que ouviu no país 1.012 brasileiros com mais de 60 anos, das classes A, B e C, aponta que mais da metade (56%) viaja com cônjuges, mas entre quem tem mais de 70 anos, 19% fazem viagens sozinhos. Entre as mulheres, 17% viajam sozinhas; 23% com amigos e 31% com filhos ou netos.
Para Marina Figueiredo, presidente-executiva da Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo), que reúne 57 operadoras responsáveis por cerca de 10 milhões de embarques anuais, o turista com mais de 50 anos busca curadoria, atendimento, acompanhamento, conforto, tranquilidade e segurança. A executiva diz que há desafios logísticos e de mobilidade, especialmente na faixa a partir de 70 anos, mas defende que o setor tem investido em infraestrutura e serviços personalizados.
Dados do setor mostram que grupos de amigas superam significativamente o número de homens viajando sozinhos ou em grupos.
De acordo com Ana Carolina Medeiros, presidente da Abav, as mulheres apreciam diferentes destinos, mas alguns aparecem como destaques, como Europa, Argentina (Buenos Aires) e Chile. Já no Brasil, os destinos religiosos, as capitais e cidades com forte infraestrutura urbana e de saúde, como Gramado, São Paulo e Campos do Jordão, lideram as buscas.
Marcia Reis, 62, é um exemplo de turista que viaja sozinha e busca economizar para estender a estadia. Após se aposentar aos 51 anos, ela teve depressão quando suas filhas foram estudar em outra cidade. Marcia desejava viajar, mas esbarrou nos altos custos das agências tradicionais. Descobriu o voluntariado em troca de hospedagem e decidiu arriscar, apesar do medo de viajar sozinha. Sua primeira experiência foi em Cabo Frio (RJ).
“Foi libertador, senti como se eu tivesse passado a vida inteira dentro da caixa. Passei a ter um novo olhar das coisas. De repente eu me pego dando gargalhada, rindo de besteiras, fazendo coisas sem programação absoluta”, conta.
A aposentada, que vendeu carro e móveis, já passou por 34 países e 21 estados brasileiros. Como fica meses fora de casa, aluga a casa própria e mora com uma das filhas entre as viagens. Recentemente, retornou de um mochilão de cinco meses. “Meu sonho agora é ter um carro no qual seja possível morar.”
Embora não se considere uma influenciadora digital, compartilha suas experiências em dois livros e no Instagram para mostrar que é possível conhecer o mundo com economia. Ela relata que conseguiu visitar locais desejados, como santuários de elefantes e templos asiáticos. Segundo ela, o planejamento, o voluntariado e a redução dos gastos com hospedagem tornaram as viagens possíveis, mesmo com limitações financeiras.
Iniciativas públicas também procuram reduzir o custo das viagens para aposentados. O programa Voa Brasil, do governo federal, oferece passagens aéreas de até R$ 200 por trecho em assentos que ficariam ociosos. Atualmente podem participar aposentados do INSS que não tenham viajado de avião nos últimos 12 meses. Cada beneficiário tem direito à emissão de até dois bilhetes por ano. Os critérios de participação e demais informações estão disponíveis no site oficial.
Dicas:
- Contrate um seguro saúde
- Pesquise agências estabelecidas, de preferência com endereço fixo ou associadas a uma instituição do setor
- Pense e pesquise sobre o clima antes de fechar o pacote
- Desconfie se o preço estiver abaixo da média do mercado
Fontes: Abav e Braztoa
Este é o novo capítulo da série sobre Longevidade da Folha. As reportagens discutem o impacto do envelhecimento nas contas públicas, a pressão sobre o sistema de Previdência e as transformações no mercado de trabalho. Especialistas também abordam desafios e oportunidades para empresas de áreas como habitação, turismo e varejo, bem como reflexões sobre o que significa viver mais e melhor em meio ao aumento do custo de vida.
Fonte UOL
