Poucas figuras da tradição ocidental provocam reações tão intensas quanto Lilith.
Ao longo dos séculos, ela foi chamada de demônio, de sedutora, de rebelde, de deusa, de mãe das trevas e de símbolo da libertação feminina. Cada época parece ter criado sua própria versão dessa personagem.
No entanto, quanto mais estudo Lilith, mais me convenço de que todas essas interpretações, embora interessantes, permanecem superficiais.
Na minha opinião, o maior erro cometido ao longo da história foi tentar decidir quem Lilith era.
A pergunta mais importante nunca foi essa.
A verdadeira pergunta sempre foi: por que continuamos falando sobre ela depois de milhares de anos?
Personagens desaparecem.
Arquétipos permanecem.
É justamente por isso que acredito que Lilith jamais pertenceu exclusivamente à religião, à mitologia ou ao esoterismo.
Ela pertence à psicologia humana.
Ela sobrevive porque representa conflitos que continuam existindo dentro de cada geração.
Não escrevi Lilith – Anjo ou Demônio para convencer alguém da existência histórica dessa personagem.
Também não escrevi para defender qualquer tradição religiosa ou espiritual.
Escrevi porque acredito que Lilith funciona como um espelho.
E espelhos costumam revelar aquilo que muitas vezes evitamos enxergar.
Durante muito tempo, percebi que a sociedade insistiu em colocar as mulheres diante de uma escolha impossível.
Ou eram obedientes.
Ou eram perigosas.
Ou eram santas.
Ou eram pecadoras.
Ou eram submissas.
Ou eram egoístas.
Como se a complexidade humana pudesse caber em categorias tão estreitas.
Lilith rompe exatamente com essa lógica.
Ela se recusa a aceitar definições prontas.
Talvez seja justamente por isso que continue causando tanto desconforto.
Não porque represente o mal.
Mas porque representa a autonomia.
E toda autonomia desafia estruturas de poder.
Sempre desafia.
Entretanto, acredito que existe um equívoco igualmente perigoso.
Nos últimos anos, algumas interpretações transformaram Lilith em uma espécie de heroína absoluta.
Também discordo dessa leitura.
Nenhum arquétipo humano é totalmente luminoso.
Nenhum arquétipo humano é completamente sombrio.
A própria psicologia analítica de Carl Gustav Jung nos ensina que aquilo que reprimimos não desaparece.
Permanece vivo naquilo que ele chamou de Sombra.
Lilith habita justamente esse território.
Ela representa a mulher que deseja liberdade.
Mas também pode representar a dificuldade em confiar.
Pode simbolizar independência.
Mas também isolamento.
Pode representar coragem.
Mas igualmente orgulho.
Pode expressar autenticidade.
Mas também incapacidade de negociar.
É justamente essa ambiguidade que torna o arquétipo extraordinário.
Não existe crescimento psicológico sem confrontar nossas próprias contradições.
Talvez seja esse o motivo pelo qual tantas mulheres se identificam com Lilith, mesmo sem conhecer profundamente sua história.
Elas reconhecem, intuitivamente, um conflito que continua extremamente atual.
Como ser plenamente livre sem perder a capacidade de amar?
Como construir autonomia sem transformar toda relação em disputa?
Como preservar a identidade sem abrir mão da convivência?
Essas perguntas atravessam consultórios, empresas, famílias e relacionamentos todos os dias.
Mas seria um erro imaginar que Lilith fala apenas às mulheres.
Na minha percepção, ela também revela as dificuldades masculinas diante da transformação do papel feminino.
Muitos homens foram educados para relacionamentos que já não existem.
Da mesma forma, muitas mulheres foram preparadas para modelos que também deixaram de fazer sentido.
Estamos vivendo uma transição histórica.
E toda transição produz conflitos.
Talvez Lilith tenha permanecido viva justamente porque simboliza esse desconforto inevitável que acompanha qualquer mudança profunda.
Há outro aspecto que considero fascinante.
Sempre me chamou a atenção a rapidez com que a sociedade transforma em ameaça aquilo que desafia suas convenções.
Isso não aconteceu apenas com Lilith.
Aconteceu com filósofos.
Com cientistas.
Com artistas.
Com líderes espirituais.
E aconteceu, inúmeras vezes, com mulheres que ousaram viver além dos limites impostos pelo seu tempo.
Os argumentos mudam.
Os séculos passam.
As palavras se transformam.
Mas o mecanismo psicológico permanece surpreendentemente semelhante.
Talvez seja por isso que eu veja Lilith muito mais como uma metáfora social do que como uma personagem antiga.
Ela nos obriga a perguntar quem estamos condenando hoje apenas porque pensamos diferente.
Ela nos obriga a perguntar quais partes de nós continuam sendo reprimidas para que possamos ser aceitos.
Ela nos obriga a perguntar se nossa identidade é fruto da consciência ou apenas da repetição de modelos herdados.
Foi exatamente essa reflexão que procurei desenvolver ao escrever Lilith – Anjo ou Demônio.
Meu objetivo nunca foi apresentar respostas definitivas.
Desconfio profundamente de quem possui respostas definitivas sobre a natureza humana.
Prefiro as perguntas.
São elas que transformam pessoas.
E talvez nenhuma pergunta seja mais atual do que esta:
Até que ponto somos realmente livres para sermos quem somos?
Responder a essa pergunta exige coragem.
Porque a verdadeira liberdade nunca consiste em fazer tudo o que desejamos.
Ela consiste em conhecer profundamente quem somos antes de decidir quem queremos nos tornar.
É por isso que, na minha visão, Lilith nunca foi apenas uma personagem.
Ela continua viva porque representa uma parte da condição humana que ainda estamos aprendendo a compreender.
E talvez permaneça viva por muitos outros séculos.
Não porque a história precise dela.
Mas porque nós ainda precisamos das perguntas que ela continua nos fazendo.
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