InícioNegóciosGestãoO futuro do emprego...

O futuro do emprego no Brasil: entre a inteligência artificial, o medo e a transformação do trabalho

A inteligência artificial já deixou de ser uma discussão restrita ao setor de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de empresas e profissionais das mais diferentes áreas. Mas qual será, de fato, seu impacto sobre o emprego no Brasil? Para Ronan Mairesse, o cenário dos próximos cinco anos deve ser marcado menos pelo desaparecimento generalizado das profissões e mais pela transformação das tarefas, pela necessidade de atualização constante e pela valorização de competências humanas.

Nesta entrevista, o consultor de Desenvolvimento Humano, mentor e palestrante analisa as mudanças provocadas pela inteligência artificial, o chamado “marketing do medo”, as profissões mais expostas à automação e as competências que considera fundamentais para quem deseja continuar relevante no mercado até 2031.

Quando você pensa no mercado de trabalho brasileiro dos próximos cinco anos, acredita que a inteligência artificial realmente substituirá milhões de trabalhadores?

Ronan Mairesse: Há alguns anos, quando se falava sobre o futuro do trabalho, era comum imaginar fábricas cheias de robôs substituindo trabalhadores em linhas de produção. Automação era quase sinônimo de máquina executando trabalho braçal. Hoje, essa discussão mudou completamente de lugar. A inteligência artificial chegou aos escritórios, às escolas, aos hospitais, às agências de publicidade, aos departamentos jurídicos, aos setores de recursos humanos e até às salas onde as decisões estratégicas são tomadas.

Por isso, quando penso no mercado de trabalho brasileiro dos próximos cinco anos, não acredito em um cenário no qual simplesmente teremos milhões de pessoas substituídas por máquinas. O movimento será muito mais complexo. Algumas profissões perderão espaço, outras crescerão e praticamente todas serão impactadas de alguma maneira.

Antes de eliminar profissões inteiras, a tecnologia eliminará, reduzirá ou transformará tarefas. Essa diferença é fundamental.

Um contador continuará sendo necessário, mas provavelmente fará cada vez menos lançamentos, conferências e análises padronizadas manualmente. Um advogado continuará exercendo sua profissão, embora boa parte da pesquisa, comparação de documentos e elaboração inicial de textos possa ser realizada com apoio da inteligência artificial. O professor continuará sendo essencial, mas terá ferramentas capazes de ajudá-lo no planejamento, na produção de materiais e na análise de informações. O mesmo acontecerá com médicos, psicólogos, engenheiros, vendedores, profissionais de marketing, consultores, gestores e tantas outras profissões.

Eu mesmo percebo isso na minha rotina. Atividades que antes exigiam horas de pesquisa, organização e produção hoje podem ser aceleradas significativamente pela inteligência artificial. E o ponto que considero mais interessante é que isso não necessariamente diminui a importância do meu trabalho. Em muitos casos acontece exatamente o contrário. Sobra mais tempo para aquilo que realmente depende da minha experiência, da minha capacidade de interpretar situações, compreender pessoas, construir estratégias e tomar decisões.

É justamente aí que está uma das grandes mudanças que teremos pela frente.

Existe também um “marketing do medo” em torno da inteligência artificial?

Ronan Mairesse: Existe outro lado dessa discussão que considero importante colocar sobre a mesa. A inteligência artificial não é apenas uma revolução tecnológica. Ela também é um gigantesco mercado.

Microsoft, Google, Amazon, Meta, OpenAI e outras empresas estão investindo bilhões de dólares em infraestrutura, modelos, plataformas e produtos relacionados à IA. Para que esses investimentos retornem, empresas precisam comprar serviços, contratar infraestrutura, assinar plataformas e adquirir licenças.

Portanto, existe um interesse econômico evidente em acelerar a adoção da tecnologia.

Isso não significa afirmar que exista uma grande conspiração das empresas de tecnologia para fabricar notícias falsas. Seria difícil sustentar uma afirmação dessas. Existe, porém, algo muito mais simples: um enorme alinhamento de interesses comerciais em torno da criação de urgência.

E medo gera urgência.

Quando um empresário lê todos os dias que sua empresa desaparecerá caso não adote inteligência artificial, a tendência é agir. Quando um profissional escuta repetidamente que será substituído caso não utilize IA, começa a procurar ferramentas. Quando uma organização acredita que o concorrente está adotando uma tecnologia revolucionária, dificilmente quer ser a última a comprá-la.

Eu costumo olhar com bastante cautela para manchetes como “a IA vai acabar com milhões de empregos”, “metade das profissões desaparecerá” ou “em poucos anos ninguém mais trabalhará como hoje”.

A transformação é real. O exagero também pode ser.

Há inclusive uma distância significativa entre a narrativa e aquilo que está efetivamente acontecendo dentro das empresas. Pesquisas recentes mostram que a maioria das organizações pretende ampliar seus investimentos em inteligência artificial, enquanto apenas uma parcela muito pequena considera que já atingiu maturidade real no uso dessa tecnologia.

Ou seja, existe muito investimento, muita promessa e muita expectativa, mas ainda existe bastante experimentação.

Isso precisa entrar na discussão.

Também existem casos em que empresas atribuem cortes de funcionários à inteligência artificial, enquanto especialistas questionam quanto dessa redução realmente decorre da automação e quanto está relacionado a reestruturações, redução de custos, mudança de estratégia ou correções depois de períodos de contratação excessiva.

Por isso, eu evitaria tanto o negacionismo tecnológico quanto o apocalipse tecnológico.

A IA é poderosa demais para ser ignorada e ainda está em transformação demais para justificar algumas das certezas que ouvimos todos os dias.

E o que os próprios CEOs estão dizendo sobre o uso da inteligência artificial nas empresas?

Ronan Mairesse: Existe outro dado que desmonta parcialmente a ideia de que as empresas estão olhando para inteligência artificial apenas como ferramenta de substituição de pessoas.

Pesquisas recentes com CEOs de grandes companhias mostram algo importante: a maioria vê a inteligência artificial principalmente como instrumento para aumentar eficiência, produtividade e capacidade das pessoas que já estão dentro das organizações.

Um levantamento da Oliver Wyman apontou que 77% dos CEOs pesquisados pretendiam utilizar tecnologia para aumentar a produtividade da força de trabalho, em vez de simplesmente automatizar funções. Outra pesquisa, da KPMG, mostrou que 92% dos CEOs esperavam aumentar o número de funcionários e que uma parcela expressiva também estava concentrada em retenção e requalificação de talentos.

Isso muda bastante a conversa.

O empresário não está necessariamente pensando: “Como vou eliminar todas essas pessoas?”.

Em muitos casos, a pergunta é outra: “Como faço essas pessoas produzirem mais utilizando inteligência artificial?”.

Essa diferença é enorme.

Também não podemos romantizar o cenário. Algumas funções serão reduzidas, principalmente aquelas mais padronizadas, previsíveis e de menor complexidade. Determinadas posições de entrada também poderão sofrer pressão, justamente porque muitas tarefas utilizadas para formar os profissionais iniciantes podem ser executadas por sistemas inteligentes.

O movimento, entretanto, parece muito mais próximo de uma reorganização do trabalho do que de um desaparecimento generalizado do trabalho.

A disputa será entre seres humanos e máquinas?

Ronan Mairesse: Existe uma frase repetida com frequência quando se fala em inteligência artificial: “a IA vai roubar o seu emprego”.

Considero essa afirmação simplista.

Em muitas atividades, a competição será muito mais parecida com isto: profissional que utiliza inteligência artificial versus profissional que não utiliza inteligência artificial.

Quando uma pessoa consegue fazer em duas horas aquilo que outra leva um dia inteiro para realizar, surge uma diferença brutal de produtividade. Quando consegue utilizar tecnologia para pesquisar, analisar dados, estruturar ideias, automatizar processos, identificar padrões e produzir alternativas rapidamente, amplia sua capacidade profissional.

Isso não significa aceitar cegamente aquilo que uma máquina produz. Pelo contrário.

Quanto mais poderosa a inteligência artificial se torna, maior é a responsabilidade de quem a utiliza. Será necessário saber perguntar, interpretar, verificar, corrigir e decidir.

A máquina pode produzir cem respostas.

Ainda precisaremos de alguém capaz de reconhecer qual delas faz sentido.

Por isso, acredito que estamos entrando em uma época na qual saber utilizar inteligência artificial deixará gradativamente de ser um diferencial e passará a ser uma competência básica, assim como aconteceu com a internet, o e-mail, os mecanismos de busca e os programas de escritório.

Quais profissões e atividades tendem a crescer e quais podem sofrer maior pressão?

Ronan Mairesse: As tendências apontam crescimento importante em áreas relacionadas à inteligência artificial, análise de dados, desenvolvimento de software, cibersegurança, transformação digital, automação, energias renováveis e tecnologia.

No Brasil existem ainda características próprias que precisam ser consideradas. Logística, agronegócio tecnológico, saúde, educação, cuidado de idosos, infraestrutura, energia e serviços especializados continuarão oferecendo oportunidades.

Ao mesmo tempo, determinadas atividades estão claramente mais expostas à automação. Digitação, entrada de dados, funções administrativas repetitivas, telemarketing básico, atendimento de primeiro nível, operações bancárias simples, processamento documental, atividades contábeis operacionais e produção de relatórios padronizados estão entre elas.

Existe uma lógica relativamente simples para compreender esse risco.

Quanto mais um trabalho puder ser resumido em receber informação, seguir uma regra, processar essa informação e produzir uma resposta previsível, maior será sua possibilidade de automação.

Isso não significa necessariamente que amanhã essas pessoas deixarão de trabalhar. Pode significar algo mais silencioso.

Uma organização que precisava de dez pessoas para executar determinado processo talvez passe a precisar de sete. Depois, cinco. Eventualmente quatro.

As pessoas que permanecerem provavelmente serão aquelas capazes de operar, supervisionar, interpretar, corrigir e melhorar os sistemas utilizados.

Qual pode ser o grande desafio brasileiro diante dessa transformação?

Ronan Mairesse: Existe uma preocupação compreensível com o desemprego tecnológico, mas vejo outro risco tão importante quanto: a falta de pessoas preparadas para ocupar os novos espaços que serão criados.

O Brasil possui enormes desigualdades educacionais e digitais. Enquanto uma parcela da população já utiliza inteligência artificial diariamente, outra ainda enfrenta dificuldades com competências digitais relativamente básicas.

Isso pode produzir um fenômeno aparentemente contraditório: pessoas procurando emprego enquanto empresas procuram pessoas e não conseguem encontrá-las.

O problema estará no espaço entre aquilo que o trabalhador sabe fazer e aquilo que o mercado precisa que ele faça.

Essa distância já existe e poderá aumentar rapidamente.

Durante muito tempo funcionou uma lógica relativamente previsível. A pessoa escolhia uma profissão, fazia uma faculdade ou curso técnico, entrava no mercado e utilizava aquele conhecimento durante boa parte da vida profissional.

Esse modelo está perdendo força.

A carreira dos próximos anos provavelmente terá outra dinâmica: aprender, trabalhar, atualizar, trabalhar, reaprender, trabalhar novamente.

Conhecimento continuará sendo importante. O prazo de validade de parte desse conhecimento ficará cada vez menor.

E é justamente aqui que considero importante sair da discussão abstrata sobre o futuro e entrar em algo muito mais prático.

Pensando em 2031, quais competências você considera fundamentais para continuar sendo necessário no mercado?

Ronan Mairesse: Quando penso no mercado de trabalho dos próximos cinco anos, eu não fico tentando adivinhar apenas quais profissões vão crescer e quais vão perder espaço. Acho mais útil olhar para aquilo que uma pessoa precisa desenvolver para continuar sendo necessária.

Cargos mudam, ferramentas mudam, empresas mudam e algumas funções desaparecem. A necessidade de encontrar gente boa, capaz de pensar, aprender, resolver problemas e trabalhar bem com outras pessoas continua existindo.

Se alguém me perguntasse hoje onde eu investiria tempo e energia pensando em 2031, eu olharia para dez competências. Algumas são técnicas, outras comportamentais, e várias misturam as duas coisas. O ponto principal é que o mercado vai precisar cada vez menos de pessoas que apenas executam uma tarefa exatamente como receberam e cada vez mais de profissionais que entendem o que estão fazendo, sabem por que estão fazendo e conseguem agir quando a situação sai do previsto.

A primeira delas seria saber utilizar inteligência artificial?

Ronan Mairesse: Sim. Usar inteligência artificial vai se tornar algo comum em praticamente todas as áreas. O diferencial não estará em simplesmente saber abrir uma ferramenta e pedir que ela escreva um texto, faça um resumo ou monte uma apresentação. Isso rapidamente será básico.

O que fará diferença será saber encaixar a IA dentro do trabalho. Um vendedor poderá usá-la para estudar melhor um cliente antes de uma reunião. Um gestor poderá comparar cenários, organizar informações e preparar decisões. Um profissional de RH poderá ganhar tempo em tarefas operacionais e dedicar mais atenção às pessoas. Um professor poderá estruturar materiais e planejar melhor. Um advogado poderá acelerar pesquisas e análises.

Em quase todas as profissões haverá alguma parte do trabalho que poderá ser feita com mais rapidez e qualidade.

Só que existe um cuidado importante: quanto melhor a ferramenta, maior precisa ser a capacidade de quem a utiliza. A inteligência artificial pode entregar uma resposta bonita e ainda assim estar errada. Pode sugerir uma estratégia que parece brilhante e que não serve para aquele negócio. Pode produzir uma análise sem conhecer detalhes importantes da situação.

Por isso, eu acredito que o profissional valorizado será aquele que usa IA para ampliar sua capacidade, e não aquele que entrega para a máquina a responsabilidade de pensar.

Para quem lidera, isso também muda a expectativa. A empresa não vai querer apenas alguém que saiba utilizar uma ferramenta específica. Vai querer pessoas capazes de aprender novas ferramentas e perceber onde elas realmente ajudam. A tecnologia muda rápido demais para que o conhecimento fique preso a um único sistema.

E qual será o papel do pensamento analítico?

Ronan Mairesse: Hoje uma empresa pode ter dezenas de indicadores, relatórios, pesquisas, planilhas, dashboards e sistemas entregando informação o tempo inteiro. Mesmo assim, pode continuar sem entender o que está acontecendo.

Pensamento analítico começa justamente aí. É a capacidade de olhar para uma situação e procurar relações, causas e padrões antes de tirar uma conclusão.

Imagine que uma equipe comercial tenha vendido 15% menos em um trimestre. A explicação mais rápida pode ser dizer que os vendedores estão desmotivados. Pode ser. Mas também pode ser preço, concorrência, produto, carteira ruim, mudança no comportamento dos clientes, falha no processo comercial ou uma mistura de tudo isso.

A pessoa analítica não corre para a primeira resposta. Ela olha os dados, conversa com quem está envolvido, compara períodos e tenta entender o problema antes de sugerir uma solução.

Esse profissional passa a ter outro valor dentro da empresa. Em vez de chegar para o líder dizendo apenas “temos um problema”, consegue dizer “percebi isso, encontrei estes sinais, acredito que estas podem ser as causas e vejo algumas alternativas que podemos testar”.

Esse tipo de profissional ajuda a liderança a decidir melhor. E, quanto mais informação a tecnologia produzir, mais importante será ter gente capaz de interpretá-la.

Pensamento crítico também ganha importância nesse cenário?

Ronan Mairesse: Pensamento crítico será ainda mais importante num mundo em que qualquer pessoa poderá gerar uma apresentação convincente, um relatório bem escrito ou uma análise em poucos segundos.

A aparência de uma informação vai ficar cada vez melhor. Isso não significa que ela estará correta.

Por isso, será preciso desenvolver o hábito de perguntar. De onde veio esse dado? Essa conclusão realmente se sustenta? Existe outra explicação? O que não estamos considerando? Quem produziu essa informação? Existe algum interesse por trás dela?

Esse tipo de cuidado serve inclusive para a inteligência artificial. A ferramenta responde com muita segurança. A segurança da resposta, porém, não garante a qualidade dela.

Nas empresas, pensamento crítico também aparece quando alguém consegue discordar de maneira madura. Eu considero perigosa uma equipe que concorda com tudo o que o chefe diz. O líder pode até gostar disso durante algum tempo, mas começa a perder informação.

Pessoas precisam ter espaço para dizer “eu vejo de outro jeito” e explicar por quê. Isso não significa criar conflito por qualquer coisa. Significa ter coragem para colocar uma percepção diferente quando ela pode ajudar a empresa.

Um bom líder precisa de gente que pense com ele, e não apenas de pessoas que executem tudo em silêncio.

Por que a capacidade de resolver problemas será tão valorizada?

Ronan Mairesse: Eu costumo dizer que mercado de trabalho é mercado de problemas. Uma empresa contrata pessoas porque existem coisas que precisam ser resolvidas. Ela precisa vender, atender, produzir, organizar, reduzir custos, melhorar processos, desenvolver pessoas, criar produtos, resolver conflitos ou entregar alguma coisa para alguém.

Quanto maior a qualidade dos problemas que uma pessoa consegue resolver, maior tende a ser o valor dela.

Isso vai ficar ainda mais evidente com a inteligência artificial. Tudo o que for muito repetitivo, previsível e baseado em regras claras terá mais chance de ser automatizado. O espaço humano aumenta quando a situação fica confusa.

Imagine um cliente importante dizendo que vai cancelar um contrato. Nenhuma ferramenta conhece toda a história daquela relação. Talvez exista um erro operacional, uma expectativa mal alinhada, um conflito com alguém da equipe ou simplesmente uma mudança na estratégia do cliente. Alguém terá que ouvir, interpretar, negociar e decidir o que vale a pena fazer.

Esse é o tipo de problema que exige mais do que conhecimento técnico. Exige leitura de contexto, experiência, capacidade de conversar e tranquilidade para decidir sem ter todas as respostas.

Por isso, eu incentivaria qualquer profissional a olhar menos para as tarefas que executa e mais para os problemas que sabe resolver. A pergunta “o que eu faço?” tende a ficar pequena. A pergunta “o que eu consigo resolver?” pode dizer muito mais sobre o futuro de uma carreira.

E a comunicação assertiva?

Ronan Mairesse: Quase todo mundo acredita que sabe se comunicar. Os problemas dentro das empresas mostram que não é bem assim.

Muita coisa dá errado porque alguém falou de um jeito e o outro entendeu de outro. Uma orientação ficou vaga, uma cobrança virou ataque, uma mensagem foi escrita no calor da irritação, uma conversa importante foi adiada e um problema pequeno cresceu durante semanas.

Comunicar bem começa pela capacidade de organizar o próprio pensamento. Depois vem a capacidade de adaptar a mensagem para quem está ouvindo.

Um especialista pode dominar completamente um assunto e ainda assim não conseguir explicar aquilo para um cliente. Um líder pode saber exatamente o que precisa ser feito e fracassar porque a equipe não entendeu a prioridade. Um vendedor pode conhecer todos os detalhes do produto e perder a venda porque fala demais e escuta pouco.

A comunicação também exige coragem. Tem gente que prefere enviar dez mensagens a ter uma conversa de cinco minutos. Evita feedback, evita conflito e espera que a outra pessoa perceba sozinha o que está acontecendo.

Na prática, muitos dos problemas que chamamos de gestão são conversas que alguém não teve no momento certo.

E aqui existe uma coisa simples que eu valorizo muito: saber ouvir. Quem escuta bem percebe informação que não aparece em relatório nenhum. Percebe dúvida, resistência, insegurança e até aquilo que a pessoa ainda não conseguiu organizar em palavras.

Num mercado cada vez mais digital, saber conversar bem com gente real será um diferencial enorme.

Autoconhecimento e autogestão emocional também terão impacto sobre as carreiras?

Ronan Mairesse: Essa é uma competência que eu colocaria muito acima do lugar em que normalmente aparece.

Uma pessoa pode ser tecnicamente excelente e ainda comprometer a própria carreira pela maneira como reage às situações. Pode não suportar ser contrariada, interpretar qualquer feedback como ataque, perder o controle quando está sob pressão ou levar um problema de uma reunião para todas as pessoas com quem falar depois.

Pense num gestor que entra em uma reunião depois de ter levado uma cobrança pesada da diretoria. Ele chega irritado, começa a interromper, aumenta o tom de voz e transforma qualquer pergunta em confronto. A equipe não estava na reunião anterior, mas recebe emocionalmente aquilo que aconteceu lá.

Esse é um exemplo simples de como as emoções circulam dentro de uma organização.

Autoconhecimento começa quando a pessoa passa a perceber os próprios padrões. Como eu reajo quando alguém discorda de mim? O que acontece quando recebo uma crítica? Em que situações meu ego aparece mais? O que me deixa inseguro? Como eu me comporto quando estou cansado ou pressionado?

Essas perguntas parecem pessoais, mas têm impacto profissional direto.

A neurociência do comportamento ajuda a compreender por que, sob estresse, nossa atenção, nossa percepção de ameaça e nossa capacidade de decidir mudam. A psicologia ajuda a entender emoções, motivação, crenças e padrões de comportamento. A psicologia social mostra como o grupo e o ambiente influenciam nossas escolhas.

Para um líder, conhecer minimamente esses temas faz muita diferença. Quem lidera pessoas precisa entender que comportamento tem contexto.

Também precisa entender o próprio comportamento.

Raiva é uma emoção. Gritar com alguém é uma escolha de comportamento. Ansiedade é uma emoção. Controlar cada detalhe do trabalho da equipe é um comportamento. Insegurança é uma emoção. Centralizar todas as decisões é um comportamento.

Autogestão emocional aparece quando a pessoa consegue criar algum espaço entre o que sente e aquilo que faz.

Às vezes esse espaço é simplesmente não responder uma mensagem na hora. Em outras situações, é admitir que está irritado e preferir retomar a conversa depois. Em outras, é perceber que o problema que está carregando não tem relação com a pessoa que está na sua frente.

Quem ocupa liderança precisa desenvolver isso com ainda mais atenção. Um funcionário emocionalmente desorganizado pode prejudicar algumas relações. Um líder emocionalmente desorganizado pode desorganizar uma equipe inteira.

Como a adaptabilidade entra nessa lista?

Ronan Mairesse: O mercado dos próximos anos vai exigir gente capaz de mudar sem perder o senso crítico.

Existe uma diferença entre adaptar-se e correr atrás de qualquer novidade.

Imagine um vendedor que construiu toda a carreira visitando clientes presencialmente. Durante anos, isso funcionou muito bem. De repente, uma parte importante das negociações passa a acontecer por vídeo, WhatsApp ou outros canais.

Ele pode insistir que venda de verdade só acontece presencialmente e perder oportunidades. Também pode jogar fora tudo o que aprendeu e achar que agora basta dominar tecnologia.

Nenhuma das duas respostas é boa.

O profissional adaptável preserva aquilo que continua funcionando, como relacionamento, escuta e confiança, e aprende a fazer isso dentro de um contexto novo.

Essa capacidade será importante em todas as áreas.

Às vezes uma empresa mantém processos ruins durante anos porque ninguém mais sabe por que aquilo começou. A pessoa chega, vê algo sem sentido e pergunta: “por que fazemos assim?”. A resposta é “sempre foi assim”.

Essa frase deveria despertar curiosidade, não encerrar a conversa.

Adaptabilidade exige humildade porque, em algum momento, todos nós teremos que admitir que aquilo que sabemos pode não ser suficiente.

Isso incomoda principalmente quem já construiu reputação.

É muito mais fácil dizer que a novidade é ruim do que aceitar que precisamos aprender alguma coisa novamente.

O profissional que eu gostaria de ter numa equipe não é aquele que abraça toda moda. Também não é aquele que rejeita tudo porque sempre fez de outro jeito. É quem testa, observa e consegue mudar quando existe uma razão para mudar.

O que significa, na prática, desenvolver uma aprendizagem contínua?

Ronan Mairesse: Falar que precisamos aprender sempre já virou quase um clichê. O problema é que muita gente confundiu aprender com consumir conteúdo.

Assistir a cursos, ouvir podcasts, ler livros e acumular certificados pode ajudar. Nada disso garante desenvolvimento.

Uma pessoa pode fazer um curso inteiro sobre feedback e continuar fugindo de conversas difíceis. Pode estudar inteligência artificial durante meses e continuar usando a ferramenta apenas para pedir um texto. Pode assistir a dezenas de aulas sobre vendas e continuar fazendo as mesmas perguntas para os clientes.

Aprendizado aparece quando alguma coisa muda no comportamento.

Eu gosto de pensar de maneira simples: aprenda, teste, erre, ajuste e use de novo.

Essa lógica é muito mais próxima da vida real.

A própria aprendizagem precisa de repetição e prática. Entender intelectualmente uma ideia e conseguir utilizá-la quando surge uma situação de pressão são coisas diferentes.

É parecido com aprender a dirigir. Você pode estudar todos os comandos do carro. Quando parar numa subida e precisar sair sem deixar o motor morrer, descobre se aprendeu mesmo.

Nas empresas também acontece assim.

Outro ponto importante é que o ambiente pode ajudar ou atrapalhar. Às vezes a organização oferece um curso sobre inovação e, na segunda-feira, o funcionário volta para um setor onde toda ideia diferente é ridicularizada. Fala sobre autonomia, mas o gestor quer aprovar cada detalhe. Fala sobre colaboração e recompensa individualmente quem compete.

Nesse caso, o treinamento diz uma coisa e o ambiente ensina outra.

O profissional precisa assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento, mas líderes também precisam criar espaços onde aprender e tentar alguma coisa nova seja realmente possível.

Por que saber trabalhar com pessoas continuará sendo essencial?

Ronan Mairesse: Eu colocaria essa competência entre as mais importantes porque boa parte das carreiras trava aqui.

Existem profissionais excelentes tecnicamente que começam a perder espaço porque ninguém consegue trabalhar com eles.

Entregam bem, mas criam conflito em todo lugar. Interrompem. Não escutam. Precisam vencer qualquer discussão. Guardam informação. Falam mal dos outros. Não reconhecem erro. Reagem mal quando recebem feedback.

Durante algum tempo, uma empresa pode tolerar isso porque a pessoa entrega muito. Em algum momento, o custo aparece.

A psicologia social ajuda a entender por que relações dentro de equipes são tão importantes. Nosso comportamento muda conforme o grupo em que estamos, aquilo que é premiado, aquilo que é punido e aquilo que vemos outras pessoas fazendo.

Pense numa equipe em que o primeiro profissional que admite um erro é humilhado pelo chefe. O que acontece depois? Os outros aprendem a esconder.

Agora imagine uma reunião em que toda ideia diferente recebe uma ironia. Depois de alguns meses, as pessoas param de sugerir. O líder então reclama que a equipe perdeu iniciativa.

Talvez a equipe não tenha perdido iniciativa. Talvez tenha aprendido que mostrar iniciativa dá problema.

Esse tipo de situação mostra que líderes precisam entender mais de comportamento humano.

Cultura não nasce apenas de cartazes, valores ou discursos. Cultura nasce também daquilo que acontece quando alguém erra, quando alguém discorda, quando alguém entrega resultado, quando existe um conflito e quando o líder precisa escolher entre fazer aquilo que diz ou fazer aquilo que é mais conveniente.

Saber se relacionar bem também não significa agradar todo mundo.

Às vezes a melhor relação exige uma conversa dura. Exige limite. Exige cobrança. Exige dizer que algo não está bom.

A diferença está em conseguir fazer isso sem humilhar.

Existe diferença entre firmeza e grosseria, entre autoridade e autoritarismo, entre cobrança e ataque.

Essas diferenças parecem pequenas até você trabalhar para alguém que não conhece nenhuma delas.

Para fechar as dez competências, qual é a importância da iniciativa, responsabilidade e propósito?

Ronan Mairesse: Para fechar, eu colocaria três coisas muito próximas: iniciativa, responsabilidade e propósito.

Empresas valorizam pessoas que não ficam esperando instrução para tudo.

Isso não significa sair fazendo qualquer coisa. Significa perceber o que precisa ser feito e assumir parte da responsabilidade.

Existe uma diferença enorme entre um profissional que diz “isso aqui não vai dar certo” e outro que diz “encontrei dois problemas aqui e pensei em algumas alternativas para resolver”.

O segundo também pode estar errado.

Mas está pensando.

Está tentando.

Está assumindo responsabilidade pelo movimento.

Eu gosto muito de uma pergunta simples: “o que depende de mim agora?”.

Nem tudo depende de nós. Existem decisões do mercado, da empresa, do cliente, da economia e de outras pessoas que não controlamos. Mesmo assim, quase sempre existe alguma parte que está ao nosso alcance.

Você pode não controlar uma demissão. Pode controlar o que fará depois dela. Pode não controlar a mudança de uma tecnologia. Pode controlar se vai aprender a utilizá-la. Pode não controlar o comportamento de um chefe. Pode controlar a forma como conversa, se posiciona e decide sobre a própria carreira.

Essa postura muda bastante a maneira como a pessoa encara o trabalho.

E aqui entra o propósito.

Propósito foi transformado em uma palavra bonita demais e, às vezes, distante demais da vida real. Eu prefiro tratar de maneira simples.

Propósito é saber para que vale a pena fazer aquilo que você faz.

Para algumas pessoas, o propósito está em sustentar bem a família. Para outras, está em construir algo, ensinar, cuidar, desenvolver pessoas, resolver problemas ou ter orgulho daquilo que entrega.

O sentido pode ser diferente para cada um.

O que importa é entender que trabalhar apenas cumprindo tarefas durante muitos anos tende a pesar.

Quando a pessoa entende o impacto do próprio trabalho, a relação muda.

Um vendedor pode enxergar apenas a meta do mês ou perceber que está ajudando o cliente a resolver um problema. Uma pessoa do atendimento pode tratar aquela reclamação como mais uma entre cinquenta ou entender que, para o cliente, naquele momento, aquilo é o problema mais importante do dia. Um líder pode enxergar pessoas apenas como recursos para bater a meta ou perceber que também está formando profissionais que levarão aquela experiência para o resto da carreira.

Propósito aparece muito mais nessas pequenas coisas do que em frases escritas na parede.

Para quem lidera, existe uma responsabilidade aí. As pessoas precisam entender o que se espera delas, mas também precisam compreender para que aquilo serve. Metas importam. Resultado importa. Lucro importa. O trabalho fica mais forte quando existe algum sentido ligado a tudo isso.

Depois de todas essas transformações, o fator humano continuará fazendo diferença?

Ronan Mairesse: Quando olho para essas dez competências, fica claro para mim que o futuro do trabalho não será decidido apenas por quem domina tecnologia. A tecnologia vai ser importante e precisamos aprender a utilizá-la bem. Só que as empresas continuarão precisando de gente que pensa, que sabe se relacionar, que consegue aprender, que lida bem com pressão, que assume responsabilidade e que não perde o equilíbrio toda vez que alguma coisa sai do plano.

Por isso acredito que neurociência do comportamento, psicologia e psicologia social deveriam aparecer muito mais na formação de líderes e profissionais. Não para transformar todo mundo em especialista nessas áreas, mas para ajudar as pessoas a entenderem melhor como tomamos decisões, como reagimos ao estresse, por que resistimos a mudanças, como os grupos influenciam nosso comportamento e de que maneira confiança, pertencimento e reconhecimento afetam a forma como trabalhamos.

A tecnologia pode ser comprada. Um software pode ser implantado. Uma licença pode ser contratada em minutos. Desenvolver maturidade, construir confiança e formar gente boa continua levando tempo.

Se eu estivesse contratando alguém pensando em 2031, é claro que iria olhar formação, conhecimento técnico e domínio de tecnologia. Mas também iria querer saber como essa pessoa reage quando erra, como recebe uma crítica, como trabalha com alguém que pensa diferente, se consegue dizer “não sei”, se aprende rápido, se assume responsabilidade e se consegue conversar quando a situação fica difícil.

Talvez essas respostas digam mais sobre o futuro de um profissional do que muitos certificados.

A inteligência artificial vai continuar avançando. Parte do trabalho que hoje fazemos será automatizada. Algumas funções vão diminuir e outras vão surgir. Mesmo assim, as empresas continuarão enfrentando um problema antigo: encontrar pessoas boas para trabalhar com outras pessoas.

E quanto melhor ficar a tecnologia, mais evidente pode ficar essa diferença.

Gente que sabe usar ferramentas será necessária. Gente que sabe pensar, aprender, se controlar, conversar, colaborar, assumir responsabilidade e gerar confiança continuará sendo rara.

É nesse ponto que eu colocaria minha energia pensando em 2031.

Ronan Mairesse é consultor de Desenvolvimento Humano, mentor e palestrante requisitado do Sul do Brasil. Especialista em liderança, vendas e comportamento humano, há mais de 15 anos ajuda marcas nacionais, multinacionais, atletas, clubes e seleções na busca da alta performance esportiva e empresarial. Já palestrou para mais de 300 mil pessoas no Brasil e exterior. Tem como lema: “Eu aprendo, eu aplico e então eu ensino!”

Consultor de Desenvolvimento Humano, mentor e palestrante
Instagram: @ronanmairesse
Palestras Técnicas e Motivacionais – WhatsApp Oficial: 51 9 98448687
Site: ronanmairesse.com.br

Popular

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Leia mais

Sábado no 300 Sky Bar: Dorsa conduz a trilha sonora de uma noite acima de São Paulo

Quando chega o sábado, São Paulo muda de frequência. Restaurantes ficam...

Quando os sistemas não conversam, o leilão paga a conta

Nova etapa da gestão de veículos removidos exige mais do que...

Hipnose: o preconceito nunca foi contra o transe. Sempre foi contra o desconhecido.

Há uma pergunta que escuto há muitos anos."Você realmente acredita em...

O tribunal paralelo das redes

Quando a condenação chega pelas telas antes de chegar aos tribunais,...