Hipocrisia puritana contra a maconha – 24/03/2026 – Mariliz Pereira Jorge

Eu era adolescente e o Brasil ainda tateava sua saída da ditadura, quando um amigo foi em cana porque fumava um “beck” na rua. Tinha 16 anos. Desde então, sou favorável à legalização. Que risco a sociedade correria porque um moleque com espinha na cara queimava baseado, sossegado? Décadas depois, a cena se repete com João Gordo em Belo Horizonte, detido por portar um grama de maconha.

O episódio com o roqueiro de 62 anos é o sintoma de um país que se recusa a amadurecer. Um dos resquícios da ditadura, uma fixação pelo controle de comportamentos privados que não geram dano a terceiros. Enquanto o mercado americano fatura bilhões de dólares, cria tecnologias e gera empregos com essa indústria, o Brasil prefere o custo do policiamento inútil e do estigma.

Essa conversa não avança porque não há disposição para discutir prós e contras de uma legalização. A cegueira brasileira prefere endossar o discurso de “proteger nossas crianças do mundo das drogas”, enquanto ignora perigos reais a que elas têm sido submetidas: o isolamento, a solidão, o buraco violento das redes sociais, o aliciamento dos red pills.

Numa entrevista recente, Scott Galloway, autor de “Notes of being a Man”, diz que a pior coisa que pode acontecer entre jovens é o culto ao não consumo de álcool –um raciocínio ousado e polêmico, claro. Para o escritor, essa geração de solitários, antissociais, assexuados, que serão péssimos cidadãos, precisa sair, beber, socializar, fazer merda e aprender a se responsabilizar.

Minha geração fez isso com relativo sucesso; então, ouso dizer que vale também para a maconha, historicamente um lubrificante social, algo que se compartilha em roda. Por mais desafiador que seja ser pai e mãe hoje, talvez o mais sensato seja temer menos a rua e o convívio imperfeito do que o quarto fechado e o algoritmo.

Portanto, manter essa política de terror em relação ao porte de entorpecentes não é garantia de ordem nem de justiça; é hipocrisia puritana. É manter o Brasil em um eterno 1980, enquanto parte do mundo civilizado já entendeu que o perigo real está na falta de liberdade, de convívio humano, de relações saudáveis.


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Fonte UOL

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