No Brasil, quase metade dos municípios analisados são considerados desertos (9 em cada 20). Em termos de representatividade populacional, isso equivale a 10,2% dos brasileiros – ou 20,6 milhões de pessoas. Se adicionarmos à conta os considerados “quase desertos” (cidades que possuem apenas um ou dois veículos de comunicação), o percentual salta para 32,5%, com o silenciamento afetando 34,8 milhões de pessoas.
Volto ao primeiro parágrafo para reforçar que, além da dura relação com a escassez de condições de bem estar, também não parece ser do interesse do poder público vigente nessas localidades que dados que não lhes sejam favoráveis sejam reportados. E sem investigação, apuração e divulgação adequadas, os fatos padecem na escuridão.
Ao acessar o noticiário diariamente, nossa atenção geralmente se volta para os grandes temas da conjuntura nacional e internacional. Mas, no dia a dia, é a pauta local que nos afeta de maneira mais direta. A linha de ônibus atrasada, a estrada interditada, os eventos nos bairros que nos cercam, as denúncias quanto a conduta de prefeitos e vereadores onde vivemos. O que parecem os pormenores da cobertura de imprensa são parte essencial do serviço que o jornalismo presta aos cidadãos.
A lacuna de informação afeta regiões remotas no interior do país, mas também ocorre em diversas comunidades e regiões periféricas de grandes centros como São Paulo e Belo Horizonte. Tanto os cidadãos carecem de reportagens sobre suas próprias comunidades, quanto o resto do país também deixa de ter visibilidade sobre esses territórios.
Existe uma conexão entre a expansão da corrupção – e suas consequências – e a ausência de imprensa. Sem contar com quem fiscalize as autoridades, o caminho para o aumento de abusos de autoridade e o desvio de recursos se abre.
Nos quase desertos, o poder público, quando não coopta ou se apropria dos raros canais de difusão, se torna seu concorrente, atacando a credibilidade do que se divulga, acusando e perseguindo jornalistas e drenando seus canais de sustentabilidade econômica.
Fonte Agência Brasil
