O Spotify apagou, ao longo do último ano, mais de 57 mil episódios de podcasts que promoviam farmácias ilegais online. A ação foi revelada nesta quinta-feira em um relatório do Comitê Econômico Conjunto do Congresso dos Estados Unidos. Segundo o documento, a plataforma agiu só depois de reportagens jornalísticas exporem o problema e não repassou nenhuma informação às autoridades.
Os podcasts anunciavam opióides, benzodiazepínicos e estimulantes à venda sem receita médica. Ao todo, mais de 3.000 programas e 3.500 contas foram removidos. Apesar da escala da operação, o relatório classifica o caso como uma falha de moderação.
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Como os podcasts funcionavam na prática
Os criadores de conteúdo não estavam tentando construir audiência. O objetivo era, na verdade, colocar links para farmácias e sites de golpes nos títulos, descrições e capas dos episódios. Isso explorava a reputação do Spotify perante o Google para empurrar esses endereços para o topo dos resultados de busca.
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Essa tática explica por que 94% dos episódios removidos tiveram zero plays e 99% tiveram menos de dez. Ninguém precisava ouvir nada, o áudio era só uma desculpa para hospedar os links.
O problema é que o Spotify não monitora os cliques dentro dos episódios. A plataforma rastreia esse tipo de dado apenas para anúncios pagos. Ou seja, não há como saber quantas pessoas acessaram as farmácias ilegais a partir dos links enterrados nas descrições.
Os casos que chamaram atenção
Cinco podcasts conseguiram passar de 100 plays. Dois deles somaram juntos cerca de 13 mil reproduções e ensinavam os ouvintes a comprar modafinil, um medicamento para distúrbios do sono, usando bitcoin. Um terceiro, com 125 plays, direcionava usuários a sites que fingiam ser marketplaces de remédios para câncer e HIV.
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Um dos programas flagrados pelo comitê da senadora, em julho de 2025, levava a um site chamado Opioidstores.com. Esse domínio foi confiscado posteriormente por promotores federais americanos em parceria com a Administração de Repressão às Drogas (DEA) e a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA). O Spotify removeu o podcast, mas não relatou nada às autoridades.
Em 2024, o Spotify tomou medidas contra menos de 100 contas por conteúdo relacionado a drogas. Em 2025, esse número pulou para mais de 3.500. O comitê apresenta essa diferença como prova de que a empresa só agiu depois de entrar no radar público. O Spotify rebate essa leitura. A empresa alega que a forma de contabilizar remoções mudou no período, o que tornaria a comparação imprecisa.
Por que o Spotify não avisou a polícia
A plataforma disse ao comitê que só aciona as autoridades quando identifica uma ameaça iminente à vida ou à segurança de alguém. Os podcasts foram classificados internamente como uma estratégia de SEO, e não como evidência de vendas reais de drogas. Por isso, nunca atingiram o critério para uma denúncia formal.
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Outros players do setor têm postura diferente. O Snap faz denúncias proativas à DEA regularmente. O Meta afirma cooperar com autoridades no combate à venda de drogas. O Spotify argumenta que, como serviço de streaming licenciado, suas obrigações legais diferem das de uma rede social.
O papel da inteligência artificial
Boa parte desse conteúdo é gerada por IA. O relatório menciona serviços que oferecem “estúdios de podcast com IA”, com vozes sintéticas e publicação direta no Spotify. Em um caso citado, um podcast gerado por IA se passava por um psiquiatra real e descrevia o uso de benzodiazepínicos, classe de remédio que a DEA aponta como alvo de abuso entre adolescentes.
Em setembro de 2025, o Spotify anunciou proteções contra spam de IA e informou ter removido 75 milhões de faixas musicais espúrias no ano anterior. Mas a empresa confirmou que essas medidas se aplicam só à música. Para podcasts, não há política específica contra conteúdo gerado por IA, e um representante da empresa admitiu ao comitê que a plataforma não está bem posicionada para identificar esse tipo de material.
Fonte Tecmundo
