Laudo pericial da PF (Polícia Federal) sobre o acidente com o avião da Voepass que matou 62 pessoas em 2024 identificou falhas no sistema de degelo em ao menos outros 16 voos com a mesma aeronave em períodos próximos da tragédia.
O documento cita que o comandante chegou a comparar a aeronave a um Fusquinha. Os dados do laudo deverão ser detalhados a parentes das vítimas na tarde desta quinta-feira (6) na sede da instituição em São Paulo.
O avião viajava de Cascavel (PR) ao Aeroporto de Guarulhos (SP) e caiu em Vinhedo, no interior paulista.
A expectativa das famílias é que a PF informe a abertura de um procedimento que leve ao indiciamento criminal no caso.
Questionada na quarta-feira (5) sobre o laudo, a Polícia Federal disse que o relatório seria apresentado nesta quinta e não confirmou se iria fazer indiciamentos.
No documento de 200 páginas, que a Folha teve acesso, a perícia analisou o gravador de dados dos 136 voos realizados com o avião ATR 72-500, o primeiro deles é de 23 de junho de 2024 —o acidente foi no dia 9 de agosto daquele ano.
A perícia cita, entre outros, voos em 7 de agosto, ou seja, dois dias antes da queda, em 13 de julho e o que antecedeu o acidente, de Guarulhos a Cascavel, com sucessivas ações de ligar e desligar o sistema de degelo, “compatíveis com a tentativa de reset do sistema”.
“Em outros nove voos em que houve o acionamento do airframe de-icing, verificou-se que o sistema permaneceu ligado por intervalos muito curtos, com ciclos de acionamento e desligamento em poucos minutos ou poucos segundos”, diz o texto.
Ainda assim, aponta o laudo, não havia qualquer registro dessas falhas no livro técnico da aeronave o que poderia ter evitado que continuasse voando.
Os peritos também encontraram uma ordem de serviço que registra a retirada de uma válvula do sistema de degelo, em julho de 2024, sem o correspondente registro de reinstalação.
Com base no gravador de voz, o relatório publica uma série de transcrições de falas entre o comandante e o co-piloto da aeronave.
O laudo afirma que a própria tripulação do voo acidentado já havia enfrentado, horas antes, durante o voo Guarulhos–Cascavel (PTB2282), condições de formação de gelo e alerta de falha do sistema. Por isso, os peritos entendem que, conhecendo a intermitência do sistema e diante da previsão de gelo na rota de retorno, o comandante deveria ter recusado o despacho da aeronave.
Nesse voo, o comandante se mostra aliviado após tocar no solo. “Ufa, chegamos vivos”, afirmou, conforme o documento, após o pouso em Cascavel.
Cerca de 4 minutos antes, durante a aproximação ao aeroporto, o piloto cita que o problema com gelo parecia ter sido resolvido. “Ó lá o gelo, o gelo foi embora agora, finalmente, escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.”
No fatídico voo da volta, o comandante admite o problema no sistema de degelo após ouvir um som. “É o Airframe que deu fault [falha], pode tirar, pode tirar, pelo menos a gente já sabe que tá… [fudido]”, diz.
A investigação afirma que a aeronave foi despachada para voar em condições favoráveis à formação de gelo. Além disso, o ATR foi liberado para voar mesmo com o limpador do para-brisa do comandante inoperante, em desacordo com a Lista de Equipamentos Mínimos (MEL, na sigla em inglês) diante da previsão de chuva no destino.
Em outro trecho, o comandante compara o avião a um “Fusquinha”, ao ouvir o sinal sonoro. “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá, Herbie, filme bem antigo.”
Ao todo, a aeronave emitiu 11 alertas, sendo um deles de falha no sistema de degelo.
Os peritos dizem que não é possível afirmar que um sistema de degelo funcionando corretamente impediria o acidente, já que ele apenas reduz os efeitos do gelo, mas destacam que uma aeronave com o sistema de degelo indisponível não poderia operar naquelas condições.
Segundo o laudo, se os comandantes dos voos PTB2204 e PTB2293 tivessem registrado formalmente as falhas observadas, a aeronave não poderia ter continuado voando naquelas condições meteorológicas.
“A avaliação dos vídeos, dos gravadores de voo, dos registros dos computadores de bordo, da documentação da operação e da manutenção e do ambiente meteorológico indica que o sinistro resultou de uma sequência iniciada pela operação em condições de formação severa de gelo, que superou a capacidade de proteção disponível no momento e culminou na perda de controle em voo”, afirma perícia da PF.
“A aeronave, ainda estruturalmente íntegra, deixou de responder de maneira estável e controlada, saiu do envelope de voo [com estol e rolamento descoordenado], o que tornou inviável sua recuperação dentro da altura e da energia restantes”, afirma.
O laudo conclui que, mesmo após receber sucessivos alerta de degradação de desempenho e de aumento de velocidade, os pilotos não executaram, de forma tempestiva (em tempo adequado), os procedimentos previstos nos manuais, como abandonar imediatamente a área de gelo, aumentar a velocidade e declarar emergência.
Segundo os peritos, essas ações deixaram de ser tomadas na estreita janela de tempo em que ainda seria possível evitar a perda de controle da aeronave.
Procurada nesta quinta-feira por email, a Voepass não respondeu até a publicação desta reportagem.
No último dia 23, a empresa disse que a tripulação do voo 2283 era “experiente, capacitada e devidamente certificada”, “sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação”.
“Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.”
A empresa disse ainda que desde o acidente “esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória”.
Cenipa apontou que avião não poderia ter decolado
Relatório do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), divulgado no último dia 23 de julho, apontou que avião não poderia ter decolado.
Os técnicos do órgão da FAB (Força Aérea Brasileira) mapearam 19 fatores que contribuíram para o acidente, entre eles as questões técnicas da aeronave, falhas dos pilotos e uma cultura organizacional que priorizava a continuidade das operações em detrimento da segurança.
Segundo o advogado Leonardo Amarante, que defende a associação dos familiares das vítimas, cerca de dez pessoas devem ser indicadas pela Polícia Federal, desde responsáveis pela empresa aérea aos envolvidos no despacho do voo e na manutenção da aeronave.
“O indiciamento deve envolver corresponsáveis por todo essa cadeia [da operação aérea], pois houve exposição ao risco de transporte”, diz.
Se o procedimento for confirmado pela Polícia Federal, Amarante buscará, como representante das famílias, ser um dos assistentes de acusação do Ministério Público Federal no processo judicial.
“Vemos a possibilidade de indiciamento como uma expectativa muito favorável, pois esse caso está se se revelando paradigmático entre acidentes aéreos anteriores em que ninguém foi condenado”, afirma.
Fátima Albuquerque, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas, afirma ter ficado assustada com o nível de tranquilidade e “deboche” do piloto. “Pareciam anestesiados.”
Fonte UOL
