
Neste Dia Mundial da Fotografia, celebrado a 19 de agosto, a ONU News em Maputo conversou com profissionais que vão além do simples registro visual: eles eternizam histórias e ajudam a salvar vidas através da “escrita fotográfica”.
Um desses talentos é o fotojornalista Emídio Josine. Com uma lente focada na empatia e na ação, Josine construiu uma trajetória sólida colaborando com diversas agências das Nações Unidas.
Tempo real sobre operações de socorro
As entidades a que prestou serviço são Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Pnud, o Programa Mundial de Alimentos, WFP, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef e a Organização Internacional para as Migrações. OIM.
Março de 2024, Comunidade de Nhaboa, Escola de Chibabava, Distrito de Muxungue, Província de Sofala. Sessão de círculo de interesse para discutir diferentes questões relacionadas à proteção de jovens e crianças.
Especializado em fotojornalismo de impacto, Josine dedica seu portfólio a dar visibilidade a crises globais urgentes. Suas imagens oferecem um relato poderoso e em tempo real sobre operações de socorro, os impactos de emergências sanitárias e as mobilizações cruciais na defesa dos direitos humanos.
“Foi um momento de devastação para o povo Sena, o povo da beira, e o povo lá sofreu muito. Eu fui um dos primeiros fotógrafos a chegar no terreno quando o ciclone Idai atingiu a província de Sofala… O que eu vi quando cheguei, a primeira coisa que eu tive a chance foi de procurar a beira, o interior da beira, os bairros, e aquilo que eu vi pessoalmente como fotógrafo foi a tristeza na cara das pessoas daquilo que elas perderam. As pessoas tinham perdido completamente tudo.”
Dos ciclones Idai e do ciclone Kenneth, Josine diz ter aprimorado o amor ao próximo, pois foi ali que suas lentes registaram os momentos difíceis. Ele recorda que as pessoas perderam suas casas, seus bens e perderam esperança e vontade de viver.
Lição da vida
“Uma das fotografias que eu mostro aqui nesta reportagem é de uma idosa que quando fui visitar a ela, simplesmente o nosso contato foi visual e nunca chegamos a trocar nenhuma palavra, até hoje que vos falo. E aquilo marcou-me bastante porque eu percebi que as mudanças climáticas provocadas pelo homem trazem um afeto direto e negativo na própria vida de nós, os homens. Então esta fotografia é uma que mais me marcou durante a minha carreira. E foi uma das primeiras fotografias que circulou o mundo sobre o ciclone Idai.”
Na noite de 14 para 15 de março, Moçambique foi assolado pelo ciclone Idai que matou mais de 600 pessoas, provocou mais de 1.641 feridos e causou danos de cerca de US$ 773 milhões.
Seis meses depois, foram necessários cerca de US$ 398 milhões para apoiar a população afetada pelo ciclone mais forte ocorrido no oeste de África em 20 anos e do ciclone Kenneth que passou pelo país seis semanas depois.
Face as diversas situações, Ricardo Franco afirma que o objetivo do fotógrafo é levar as histórias reais, de pessoas reais, ao encontro daqueles que vivem em Tóquio, São Francisco ou que vivem em Genebra, por exemplo…Ele argumenta os fotógrafos chegam a lugares onde a maioria das pessoas nunca vão.
IDAI 2018, Beira ao largo do rio BUZI, – Centenas de famílias encontraram abrigo no único plano alto da região, alguns não conseguiram salvar os seus bens, gado e plantações. estiam se que milhares de terras aráveis ficaram submersas pelas chuvas do ciclone IDAI.
Mensageiros
“As nossas fotos tentam talvez tocar os corações e as mentes daqueles que nos apoiam O que nós tentamos levar é mostrar as problemáticas, mostrar as emergências, desde ciclones, famílias deslocadas, a desnutrição, a educação, saúde, são tantas as áreas que precisam de um olhar atento. Nós transformamos esses números em histórias de pessoas, na sua resiliência, na sua luta por uma vida melhor, com o apoio das agências das Nações Unidas que tentam fazer de tudo para que o sofrimento seja diminuído.
A relação com a fotografia data de 2003, com um vasto acervo fotográfico, Ricardo Franco disse ser difícil escolher fotos para ilustrar os momentos marcantes, porém aleatoriamente recordou de um episódio e partilhou com a ONU News.
“Há uma foto que eu tirei aqui na zona de Chibuto, que é no sul de Moçambique, onde uma mãe foi dar parto num hospital rural, teve gêmeos, ela nunca tinha ido a uma consulta e não me consigo esquecer do olhar perdido daquela jovem, ela era bastante jovem, com duas crianças na mão, onde não tinha capacidade de falar português, só falava a língua local, que é o Changana neste caso, e aquele olhar perdido daquela mãe, que não sabia bem o que havia de fazer agora, é uma imagem que não consigo esquecer, apesar de terem passado já muitos e muitos anos.”
Resgatando memórias marcantes, Franco reforça a importância da fotografia como motor de desenvolvimento. Mas ele deixa um recado importante para fotógrafos experientes e iniciantes: vivemos uma era em que a imagem e o vídeo estão ao alcance de todos e é justamente por isso que o intuito por trás da câmera importa tanto.
Para ele, a fotografia precisa ir além do estético. Deve ser usada como uma força de mobilização para construir uma sociedade mais justa, harmoniosa e guiada pelo amor.
* Ouri Pota é correspondente da ONU News em Maputo.
Fonte ONU
