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Rock in Rio: a festa é do mundo, mas o impacto fica no Rio

Por Bayard Do Coutto Boiteux

O Rock in Rio é uma extraordinária máquina de promoção. Poucos eventos conseguem projetar com tamanha intensidade o nome de uma cidade. Durante dias, o Rio de Janeiro circula pelo mundo associado à música, à juventude, à alegria e ao espetáculo. Hotéis, restaurantes, transportes, comércio e serviços sentem seus efeitos positivos, enquanto a cidade conquista uma exposição internacional que custaria milhões em campanhas publicitárias. Negar essa força seria desconhecer a verdadeira dimensão do evento. Transformar o sucesso em unanimidade, porém, seria ingenuidade.

Os que ficam: o impacto na rotina da vizinhança

Existe um outro Rock in Rio, muito menos fotografado e divulgado: aquele vivido por quem mora e trabalha no entorno. Para milhares de trabalhadores da Barra e regiões próximas, chegar ao emprego ou simplesmente voltar para casa pode se transformar numa verdadeira operação de resistência. Bloqueios, alterações no trânsito, congestionamentos, transportes lotados e percursos modificados interferem na vida de quem não está indo a um show, mas apenas tentando cumprir sua jornada diária. É uma contradição incômoda: a festa que aproxima o Rio do mundo pode, ao mesmo tempo, dificultar o deslocamento de quem está a poucos quilômetros dela.

E há o barulho. A música é a essência do Rock in Rio, é claro. Mas quem mora nas proximidades não comprou ingresso e acaba recebendo, de forma involuntária, horas de som intenso, movimentação constante e profundas mudanças na rotina. O direito à festa precisa conviver, com equilíbrio e respeito, com o direito ao descanso. Um megaevento dessa proporção não pode demonstrar excelência apenas dentro de seus portões; sua responsabilidade deve alcançar também a comunidade que o acolhe e o recebe.

O outro lado da balança: valorização e desenvolvimento

Seria injusto, porém, enxergar apenas os transtornos. O Rock in Rio e outros grandes eventos realizados nessa área contribuíram para colocar a região definitivamente no mapa dos grandes acontecimentos da cidade, estimularam atividades econômicas e reforçaram sua atratividade. Essa projeção, somada às transformações urbanas ocorridas ao longo dos anos, também favoreceu a percepção de valorização imobiliária do entorno. Para muitos moradores, viver perto de uma área que se tornou referência nacional e internacional passou a representar não apenas inconvenientes ocasionais, mas também um valor e um reconhecimento que se refletem ao longo de todo o ano. É o grande paradoxo dos megaeventos: incomodam em determinados dias, mas podem contribuir para valorizar aquilo que está ao redor durante muitos anos.

Arquivo de Bayard Do Coutto Boiteux

Bayard Do Coutto Boiteux

Conviver melhor: respeito como parte do evento

Justamente por isso, é possível e necessário construir uma convivência mais inteligente e generosa. Por que não oferecer descontos especiais nos ingressos aos moradores do Rio e condições ainda mais vantajosas para quem vive no entorno da Cidade do Rock? Quem empresta sua vizinhança, altera sua rotina, enfrenta dificuldades de circulação e convive diretamente com todos os impactos deveria sentir-se também convidado a participar da festa. Não seria um favor, mas uma política sensata de integração, de justiça e de pertencimento.

O sucesso que fica quando as luzes se apagam

O Rio ganha muito com o Rock in Rio: visibilidade internacional, turistas, movimento, consumo, empregos e uma poderosa narrativa positiva. Mas precisamos continuar perguntando quanto desse sucesso permanece quando os palcos se desmontam e as luzes se apagam. Quanto chega de fato aos pequenos negócios da região? Quantos empregos se mantêm depois do evento? Que melhorias permanecem para a comunidade? E qual é a verdadeira contrapartida para uma cidade que oferece ao evento não apenas território e infraestrutura, mas um de seus maiores tesouros: o próprio nome Rio de Janeiro?

Não se trata de ser contra o Rock in Rio. Muito pelo contrário. É reconhecer sua enorme importância e, justamente por isso, desejar que ele seja cada vez melhor. O evento já demonstrou que sabe ser gigante no palco, na tecnologia, na comunicação e no planejamento. Pode — e deve — ser igualmente gigante na relação com seus vizinhos.

O Rio merece o Rock in Rio, e o Rock in Rio precisa continuar merecendo o Rio. Que venham a música, os turistas, a alegria e os grandes espetáculos. Mas que venham também o diálogo, as contrapartidas justas e o respeito a quem mora e trabalha aqui. Porque uma festa verdadeiramente grandiosa não é apenas aquela que encanta quem chega. É aquela que também deixa feliz quem fica.

Bayard Do Coutto Boiteux é professor universitário, escritor e pesquisador.

http://www.bayardboiteux.com.br/

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