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Geração ansiosa

Parte 2 – Quando a ansiedade deixa de estar apenas na mente

No artigo anterior, tratei de uma questão que considero central para compreender a ansiedade contemporânea. O mundo mudou rapidamente, multiplicou estímulos, reduziu intervalos e criou uma expectativa de disponibilidade quase permanente. Nosso organismo, entretanto, continua precisando alternar momentos de ativação e recuperação.

Essa diferença ajuda a explicar muita coisa, mas ainda deixa uma pergunta.

Se sabemos que determinada preocupação é exagerada, por que não conseguimos simplesmente desligá-la?

Essa é uma pergunta que escuto com frequência. A pessoa reconhece que está antecipando acontecimentos, percebe que seus pensamentos estão excessivos, às vezes sabe exatamente de onde vem sua ansiedade e, ainda assim, continua sentindo o coração acelerar, a musculatura contrair, o sono desaparecer.

Existe uma razão para isso.

Ansiedade não é apenas pensamento.

E talvez parte da dificuldade de compreendê-la esteja justamente no hábito de separar mente e corpo como se fossem dois sistemas independentes.

Não são.

Antes do pensamento existe uma reação, nosso organismo possui mecanismos muito antigos de identificação e resposta ao perigo. Isso não é uma falha. É uma condição de sobrevivência. Se toda situação potencialmente ameaçadora exigisse uma análise consciente, detalhada e demorada antes de qualquer reação, provavelmente nossa espécie não teria chegado muito longe.

O cérebro trabalha continuamente avaliando informações internas e externas. Nesse processo participam diferentes estruturas e redes neurais. A amígdala costuma receber bastante atenção quando se fala de medo e ansiedade porque está envolvida na detecção da relevância emocional e na resposta a possíveis ameaças. Mas seria simplista tratá-la como um pequeno botão cerebral responsável por produzir medo.

O processo é mais complexo.

Memória, contexto, experiências anteriores, percepção corporal e regiões corticais envolvidas na avaliação e regulação também participam daquilo que finalmente experimentamos como ansiedade.

Isso ajuda a compreender uma situação aparentemente contraditória: posso saber racionalmente que estou seguro e continuar me sentindo ameaçado.

O pensamento diz uma coisa. O organismo ainda responde de outra maneira.

Quem já teve uma crise intensa de ansiedade provavelmente entende essa diferença sem precisar de grandes explicações.

Dizer a alguém nesse estado que “não há motivo para ficar ansioso” costuma produzir pouco efeito. Em determinadas situações, produz ainda mais desconforto, porque acrescenta uma segunda questão à primeira, além de estar ansiosa, a pessoa começa a acreditar que não deveria estar.

Surge então a pergunta, se sei que não deveria me sentir assim, por que continuo sentindo?

Talvez porque emoções não obedeçam tão facilmente àquilo que decidimos racionalmente.

O corpo participa da ansiedade

Durante muitos anos, criou-se uma maneira bastante comum de falar sobre ansiedade como se ela estivesse localizada na cabeça. A própria expressão “é psicológico” muitas vezes foi utilizada quase como sinônimo de “não existe fisicamente”.

Isso é um equívoco.

A ansiedade pode ser percebida no ritmo cardíaco, na respiração, na musculatura, no aparelho digestivo, no sono, na inquietação motora e em várias outras respostas fisiológicas. Nem todas aparecem em todas as pessoas e nem toda manifestação física significa ansiedade. Essa ressalva é importante, inclusive porque sintomas persistentes precisam ser avaliados adequadamente e não atribuídos automaticamente a uma causa emocional.

Mas quem convive com ansiedade frequente conhece bem essa dimensão corporal.

Às vezes o primeiro sinal nem é um pensamento.

É um aperto.

Uma alteração na respiração.

Uma inquietação difícil de localizar.

Depois surge a interpretação.

Esse encadeamento me interessa porque muda a maneira de pensar o problema. Se o corpo participa da construção e da manutenção do estado ansioso, não faz muito sentido tentar trabalhar exclusivamente com aquilo que a pessoa pensa.

Pensamento importa. Muito.

Mas não está sozinho.

O organismo também aprende

Há outro ponto que merece atenção. Nosso sistema nervoso aprende com repetição.

Quando determinadas situações são repetidamente associadas a perigo, tensão ou sofrimento, o organismo pode tornar se mais sensível a sinais relacionados àquelas experiências. Isso não significa que exista uma espécie de memória independente escondida nos músculos, nem que o corpo pense por conta própria. Significa que aprendizagem, memória e resposta fisiológica estão profundamente relacionadas.

É por isso que certas reações parecem ocorrer antes de conseguirmos explicá-las.

Um lugar.

Um cheiro.

Uma determinada forma de falar.

Uma situação profissional semelhante a outra vivida anteriormente.

Às vezes basta um elemento aparentemente pequeno para que o organismo responda.

A consciência chega depois e tenta encontrar uma explicação.

Na prática terapêutica, esse fenômeno é particularmente interessante porque a pessoa frequentemente chega dizendo: “Eu sei que está tudo bem, mas não consigo me sentir bem.”

Essa frase contém uma informação importante.

Ela sabe.

Mas não sente.

Entre saber e sentir existe um espaço que não pode ser ignorado.

O problema de querer controlar tudo

Quando alguém percebe que está ansioso, uma das primeiras tentativas costuma ser controlar aquilo que está acontecendo.

Controlar os pensamentos.

Controlar a respiração.

Controlar as sensações.

Controlar o medo.

Em determinadas circunstâncias, algumas estratégias conscientes de regulação podem ajudar bastante. O problema está na ideia de que deveríamos possuir controle voluntário e imediato sobre tudo aquilo que surge internamente.

Não possuímos.

Experimente decidir que não pensará em determinada coisa durante os próximos minutos. A própria vigilância necessária para verificar se o pensamento apareceu mantém o assunto ativo.

Com a ansiedade pode acontecer algo semelhante.

A pessoa sente o coração acelerar e começa a monitorá-lo. Percebe a respiração e passa a conferir se está respirando corretamente. Nota uma sensação física e tenta descobrir se ela aumentou. A atenção, que poderia circular por outros elementos da experiência, vai sendo progressivamente concentrada sobre os sinais que causam preocupação.

O medo passa a observar o próprio medo.

Isso não significa que todo monitoramento corporal seja prejudicial, nem que devamos ignorar sintomas. Significa apenas que a vigilância excessiva pode participar do ciclo ansioso.

Essa distinção é importante.

A atenção também fica ansiosa

Quando pensamos em ansiedade, normalmente pensamos primeiro em medo e preocupação. Há, porém, uma dimensão menos comentada, a atenção.

A mente ansiosa procura informação.

Quer saber o que pode acontecer. Tenta antecipar. Verifica possibilidades. Volta ao problema. Abandona uma tarefa para conferir outra coisa e depois retorna sem conseguir recuperar completamente o foco anterior.

No ambiente atual, essa tendência encontrou um parceiro muito eficiente.

A notificação.

O e-mail.

A mensagem.

A atualização.

A notícia urgente que, algumas horas depois, já foi substituída por outra notícia urgente.

Não estou dizendo que a tecnologia cause, por si só, transtornos de ansiedade. Essa relação seria simplista. Mas existe uma compatibilidade evidente entre uma mente preocupada em verificar continuamente o ambiente e dispositivos construídos para oferecer continuamente algo novo a ser verificado.

A pessoa pega o telefone para responder uma mensagem e, vinte minutos depois, percebe que passou por notícias, vídeos, comentários e assuntos que sequer pretendia consultar.

O corpo estava sentado.

A atenção percorreu o mundo.

Depois nos perguntamos por que é difícil permanecer alguns minutos em silêncio.

Regulação não significa passividade

Tenho usado uma palavra que precisa ser bem delimitada, regulação.

Regular um estado interno não significa suprimi-lo. Também não significa permanecer calmo o tempo inteiro.

Uma pessoa emocionalmente regulada continua sentindo medo, raiva, tristeza, preocupação e ansiedade. Seria estranho se não sentisse.

A diferença está na capacidade de transitar por esses estados sem permanecer aprisionada neles além do necessário e, sobretudo, sem transformar qualquer alteração interna em ameaça.

Há momentos em que precisamos estar muito ativados. Uma decisão difícil, uma situação de emergência, uma competição ou mesmo uma apresentação pública podem exigir aumento de atenção e mobilização.

O problema não é ativar.

É não conseguir retornar.

Essa diferença parece pequena quando colocada em uma frase, mas é enorme quando observada no cotidiano.

Há pessoas que terminam o expediente e continuam trabalhando internamente durante horas. O computador foi desligado, mas a reunião continua. A discussão continua. A tarefa do dia seguinte já começou mentalmente.

O corpo saiu do trabalho.

A mente ainda não.

Com o tempo, essa incapacidade de alternar estados cobra um preço.

Quando a ansiedade começa a participar da identidade

Talvez uma das mudanças mais delicadas aconteça quando a pessoa deixa de perceber ansiedade como algo que experimenta e começa a descrevê-la como aquilo que ela é.

“Eu sou ansioso.”

Parece apenas uma forma de falar. Nem sempre é.

A linguagem participa da maneira como organizamos nossa experiência. Quando um estado recorrente passa a integrar a definição que fazemos de nós mesmos, existe o risco de começarmos a interpretar acontecimentos posteriores a partir dessa identidade.

Não significa que basta mudar a frase para mudar a condição. Seria novamente uma simplificação.

Mas existe diferença entre dizer “estou vivendo um período de ansiedade” e concluir “sou assim”.

A primeira formulação admite movimento.

A segunda tende a parecer definitiva.

Na experiência clínica, considero importante preservar essa possibilidade de movimento. Uma pessoa pode ter vivido muitos anos respondendo de determinada maneira e ainda assim desenvolver outras formas de relação com seus pensamentos, seu corpo e suas emoções.

Isso exige tempo em alguns casos. Em outros, mudanças começam a aparecer mais rapidamente. Não existe uma medida única.

E também não existe uma técnica que responda igualmente a todas as pessoas.

O retorno não acontece apenas pela razão

Chegamos, então, a uma questão que considero essencial.

Se ansiedade envolve pensamento, corpo, memória, atenção, aprendizagem e contexto, qualquer tentativa séria de compreendê la precisa abandonar soluções únicas.

Em alguns casos haverá necessidade de psicoterapia. Em outros, avaliação médica e eventualmente tratamento medicamentoso. Há situações em que sono, atividade física, alimentação, consumo de estimulantes, ambiente profissional e relações pessoais precisam entrar na análise. Muitas vezes esses elementos se sobrepõem.

O que não me parece razoável é reduzir tudo a uma ordem: pense diferente.

Pensar diferente pode ser parte do processo. Mas há momentos em que o organismo precisa reaprender a experimentar segurança, repouso e presença.

Essa é uma área que particularmente me interessa porque trabalho há anos com estados de consciência, atenção e respostas não verbais. Minha experiência me levou a observar algo que a teoria sozinha nem sempre deixa evidente, determinadas mudanças começam a acontecer antes que a pessoa consiga explica-las em palavras.

O ritmo respiratório muda.

A musculatura cede.

A atenção deixa de percorrer tantos lugares.

O silêncio deixa de incomodar.

Não considero prudente transformar essas observações em promessa terapêutica, muito menos afirmar que uma única abordagem resolve aquilo que possui origens tão diferentes. Seria contraditório com tudo o que desenvolvi até aqui.

Mas também não considero adequado ignorar o corpo e a experiência direta quando tratamos de ansiedade.

Talvez durante muito tempo tenhamos perguntado demais à pessoa ansiosa o que ela pensa.

Precisamos continuar perguntando.

Só não podemos esquecer de observar o que acontece antes da resposta.

É nesse território que entra a próxima parte desta reflexão. Não para apresentar uma fórmula contra a ansiedade, mas para examinar algo que venho estudando e praticando há bastante tempo, o papel da presença, da atenção, da comunicação não verbal e da relação entre dois indivíduos na modificação de estados internos.

E é aí que Hipnose Não Verbal, Magnetismo Humano e Fascinação Mental precisam ser discutidos com cuidado. Sem misticismo onde ele não cabe, sem recorrer à Neurociência para legitimar aquilo que ela ainda não demonstrou e, ao mesmo tempo, sem descartar uma experiência apenas porque ainda existem aspectos dela que merecem investigação.

Continua na Parte 3: O resgate da presença e a experiência além da palavra.

Murillo C. Freitas

Murillo C. Freitas

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E-mail: murillocfreitas@gmail.com
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