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Das queijadinhas vendidas aos 10 anos a dezenas de imóveis: a trajetória de André Melhado

Empresário começou a trabalhar ainda criança, perdeu os pais durante a adolescência, construiu carreira no setor de combustíveis e encontrou no mercado imobiliário uma nova forma de organizar patrimônio e gerar renda

Antes dos caminhões, dos contratos no setor de combustíveis e dos imóveis que anos depois formariam uma holding patrimonial, havia uma caixa de queijadinhas.

André Luiz Melhado da Silva tinha aproximadamente 10 anos quando começou a vendê-las em Sumaré, no interior de São Paulo. Os doces eram preparados pelo pai, João Batista da Silva, metalúrgico que acordava por volta das quatro da manhã para produzi-los. André e as irmãs saíam para vender e podiam ficar com o lucro.

Naquela época, evidentemente, ninguém falava em estratégia comercial, formação de patrimônio ou empreendedorismo. Para uma criança, era simplesmente uma maneira de ganhar o próprio dinheiro. Visto à distância, porém, o episódio parece antecipar uma característica que acompanharia André pelas décadas seguintes: sua facilidade para enxergar oportunidades de compra, venda e geração de renda.

Aos 12 anos, ele já trabalhava como ajudante de calheiro para um amigo da família, conciliando a atividade com os estudos no período da tarde.

O que poderia ser apenas a história precoce de um menino que aprendeu a trabalhar cedo ganhou contornos muito mais difíceis nos anos seguintes.

Aos 14, André perdeu o pai após um infarto fulminante. Pouco tempo depois, aos 15, perdeu também a mãe, Raquel Sá, professora, em um acidente de trânsito envolvendo o veículo que transportava professores para a faculdade.

Duas perdas em uma fase da vida na qual a maioria das pessoas ainda depende integralmente da estrutura familiar.

André continuou trabalhando.

Antes de administrar patrimônio, ele precisou aprender a construir o próprio

Depois da morte dos pais, a entrada precoce no mercado de trabalho deixou de ser apenas uma experiência de formação. Tornou-se parte de uma vida que exigia independência muito antes do esperado.

André passou por um varejão de frutas em Itapira e, aos 16 anos, começou a trabalhar como frentista em um posto de gasolina localizado na Rodovia Anhanguera.

Foi nesse período que começou também uma relação prática com dinheiro que posteriormente teria peso em sua trajetória empresarial. Ele economizava, comprava e vendia bens e tentava transformar aquilo que possuía em algo de maior valor.

Uma motocicleta, um Fusca e depois um Voyage fizeram parte desse processo.

Aos 20 anos, depois de vender ao irmão sua participação no imóvel que pertencia à família, André conseguiu comprar a primeira casa própria.

O episódio ganharia outro significado anos mais tarde, quando os imóveis deixariam de representar apenas segurança patrimonial e se transformariam em uma das principais frentes de sua vida empresarial.

Naquele momento, entretanto, seu futuro profissional parecia apontar para outro setor.

O posto de gasolina antecipou uma carreira que chegaria ao mercado de combustíveis

A experiência como frentista colocou André em contato ainda adolescente com um universo no qual construiria parte relevante de sua carreira.

Aos 23 anos, entre 2008 e 2009, ingressou profissionalmente no setor de combustíveis em Paulínia, um dos principais polos dessa indústria no país.

Foi também nesse ambiente que conheceu Ana Cláudia. Ela participou de seu treinamento na área de vendas e, mais tarde, se tornaria sua esposa.

André se desenvolveu comercialmente e passou a figurar entre os vendedores de destaque da operação. Ao mesmo tempo em que acumulava experiência, começou a formar capital para dar passos próprios.

O casamento com Ana Cláudia aconteceu em 2011. Pouco depois, ele começou a utilizar recursos próprios na compra e revenda de combustíveis, modificando gradualmente sua posição dentro daquele mercado.

Já não se tratava apenas de vender para uma empresa.

André começava a assumir risco sobre aquilo que negociava.

Em 2012, nasceu André Felipe, primeiro filho do casal. Na mesma fase, o empresário passou a adquirir caminhões e ampliar a operação, buscando produtos em usinas e distribuidoras para realizar entregas a postos de combustíveis.

A combinação entre conhecimento comercial, transporte e negociação formaria a base de sua primeira grande etapa empresarial.

A empresa própria mudou sua posição dentro do negócio

Em 2015, ano em que nasceu sua filha Raquel, André fundou a Petro Real Administradora de Serviço.

A mudança simbolizou uma transição que vinha sendo construída havia alguns anos. O antigo funcionário passou a operar como empresário e parceiro comercial de companhias com as quais anteriormente mantinha outra relação profissional.

A atividade envolvia capital próprio, transporte e comercialização no setor de combustíveis.

Para alguém que havia começado a vida profissional realizando trabalhos manuais e atendendo motoristas em um posto na Anhanguera, administrar uma operação própria representava uma mudança significativa. Mas foi justamente quando a atividade estava consolidada que André começou a olhar para outro mercado.

Entre 2016 e 2017, passou a comprar imóveis.

Não eram necessariamente propriedades prontas ou consideradas ideais à primeira vista. Parte da estratégia estava justamente em procurar ativos nos quais enxergava uma utilização diferente daquela existente.

Imóveis antigos e propriedades localizadas em avenidas com fluxo relevante passaram a chamar sua atenção. A ideia era adquirir, reformar e, quando possível, transformar os espaços em pontos comerciais destinados à locação.

O que inicialmente funcionava como diversificação começava a revelar uma lógica própria de negócio.

O imóvel deixou de ser apenas patrimônio e passou a ser operação

Comprar uma propriedade esperando simplesmente sua valorização não era exatamente o modelo que André estava construindo.

Sua estratégia dependia de intervenção.

Era necessário observar localização, utilização possível e potencial de transformação. Um imóvel residencial antigo, dependendo das características da região e das possibilidades do espaço, poderia adquirir outra função depois de uma reforma. A receita não viria apenas de uma eventual venda futura, mas da capacidade de gerar aluguel.

Essa diferença ajudou a aproximar o mercado imobiliário daquilo que André já conhecia do comércio.

Havia compra, análise de oportunidade, investimento, transformação e busca por retorno.

Em 2018, o empresário estruturou a RS Family, holding patrimonial criada para centralizar os imóveis da família, tendo a esposa e os filhos como sócios.

O nome também revelava uma característica do projeto. Diferentemente da atividade desenvolvida no setor de combustíveis, a nova estrutura estava diretamente ligada à organização do patrimônio familiar e a uma visão de longo prazo.

Durante algum tempo, as duas atividades caminharam paralelamente.

Até que 2020 obrigou André a tomar uma das decisões mais relevantes de sua trajetória.

Nove caminhões e uma decisão em meio à pandemia

A pandemia provocou mudanças profundas em diferentes segmentos da economia, e a operação de André também sentiu os efeitos daquele período.

Naquele momento, sua estrutura de transporte contava com nove caminhões.

Diante das mudanças no negócio, ele decidiu vender a frota. Mais importante do que a venda, porém, foi a escolha sobre o destino dos recursos.

Em vez de reconstruir imediatamente a mesma estrutura ou procurar ampliar novamente a operação de transporte, André direcionou o capital obtido para imóveis.

A decisão acelerou uma transição que já estava em andamento havia alguns anos.

O mercado imobiliário deixou progressivamente de funcionar como uma atividade paralela e passou a ocupar posição central em sua estratégia patrimonial.

A mudança não aconteceu porque André desconhecia o setor de combustíveis. Era justamente o contrário. Ele havia construído experiência, relacionamento comercial e uma empresa naquele mercado. A escolha significava reconhecer que um ciclo profissional poderia dar lugar a outro.

Entre 2023 e 2024, começou a organizar o encerramento gradual das atividades da Petro Real para concentrar sua atenção na administração do patrimônio imobiliário.

Em 2025, o ciclo da empresa foi encerrado.

Saber sair também pode ser uma decisão empresarial

Histórias de empreendedorismo costumam valorizar o momento da abertura de uma empresa. Fala-se muito menos sobre a capacidade de perceber quando uma atividade cumpriu sua função dentro de uma trajetória.

Para André, encerrar a Petro Real não significou abandonar aquilo que havia construído. Parte do capital e da experiência acumulados durante os anos anteriores havia contribuído para tornar possível a etapa seguinte.

Esse movimento ajuda a compreender a estratégia que ele procura aplicar aos negócios.

Em vez de manter determinado ativo apenas porque ele funcionou no passado, André observa a possibilidade de reposicionar recursos quando identifica outra oportunidade.

Foi assim com alguns dos bens adquiridos no início da vida adulta, posteriormente com os caminhões e, em escala maior, com a migração de capital para o setor imobiliário.

A lógica também aparece nos próprios imóveis. Comprar não encerra a decisão. Uma propriedade pode ser reformada, ter sua utilização modificada, gerar renda ou assumir outra função dentro do patrimônio.

Atualmente, a RS Family administra dezenas de imóveis no Brasil, entre casas residenciais, galpões e pontos comerciais.

A empresa familiar tornou-se, assim, o resultado de uma estratégia iniciada quando André ainda dividia sua atenção entre combustíveis, transporte e as primeiras aquisições imobiliárias.

A família passou de parte da história a parte da estrutura

Se o início da trajetória de André foi marcado pela perda precoce da própria estrutura familiar, a família que ele construiu ocupa hoje posição importante em sua vida e em seu patrimônio.

Casado com Ana Cláudia desde 2011, ele é pai de André Felipe e Raquel. Os três integram, ao lado dele, a composição familiar relacionada à RS Family.

A presença da esposa possui ainda um significado anterior aos negócios imobiliários. Ana Cláudia conheceu André quando ambos estavam ligados ao setor de combustíveis e participou justamente do período em que ele começou a desenvolver a experiência comercial que posteriormente utilizaria como empresário.

Anos depois, o patrimônio construído passou a ser organizado sob uma estrutura que inclui o casal e os filhos.

Essa dimensão ajuda a explicar por que André fala sobre imóveis não apenas como oportunidade de compra e venda, mas também como construção patrimonial.

Depois de uma infância em que precisou aprender cedo o valor do trabalho e de uma adolescência marcada pela necessidade de independência, a segurança proporcionada por ativos capazes de gerar renda ganhou um significado particular em sua vida adulta.

Dos combustíveis aos imóveis, a habilidade central permaneceu parecida

À primeira vista, vender queijadinhas, trabalhar em posto de gasolina, negociar combustíveis, administrar caminhões e investir em imóveis parecem experiências pouco relacionadas.

Existe, contudo, um elemento que atravessa essas etapas: negociação.

Foi vendendo que André começou a ganhar dinheiro ainda criança. Foi na área comercial que se destacou quando ingressou no setor de combustíveis. Foi negociando por conta própria que passou de funcionário a empresário. E é também por meio da avaliação de compra, transformação e utilização que estruturou sua estratégia imobiliária.

Isso não significa que os mercados funcionem da mesma maneira. Cada atividade possui riscos, conhecimento e dinâmica próprios.

A continuidade está na forma de observar oportunidades.

No mercado imobiliário, André passou a buscar especialmente propriedades nas quais acredita ser possível agregar valor por meio de reforma ou mudança de utilização. A localização, principalmente em regiões de circulação relevante, tornou-se parte dessa análise.

O objetivo não é simplesmente acumular propriedades, mas construir ativos que tenham função dentro da estratégia patrimonial.

Um novo país e um projeto que ainda está no começo

Depois do encerramento da Petro Real em 2025, André iniciou outro capítulo pessoal.

Ele se mudou com a família para Orlando, nos Estados Unidos, onde atualmente reside com visto de estudante. Nesta etapa, uma de suas prioridades é aprender inglês enquanto continua acompanhando remotamente a administração da RS Family e dos imóveis mantidos no Brasil.

A mudança também despertou um novo objetivo profissional: estudar o mercado americano e, no futuro, avaliar a possibilidade de aplicar uma lógica semelhante àquela desenvolvida no Brasil, baseada na identificação de imóveis com potencial de transformação por meio de compra, reforma, revenda ou locação.

Por enquanto, trata-se de um projeto de futuro.

A distinção é importante porque a trajetória de André foi construída no mercado brasileiro. É no Brasil que estão os imóveis administrados pela holding e foi aqui que a estratégia foi desenvolvida e testada ao longo dos últimos anos.

Os Estados Unidos representam, neste momento, uma etapa de aprendizado e a possibilidade de um novo ciclo, não uma continuação automática do modelo.

Depois de tantas mudanças profissionais, talvez essa disposição para estudar antes de avançar seja coerente com a própria história.

Aos 10 anos, o lucro cabia em uma caixa de doces

Hoje, quando observa uma propriedade, André procura entender o que aquele ativo pode se tornar. Décadas atrás, sua relação com dinheiro era muito mais simples: o pai preparava queijadinhas de madrugada, os filhos vendiam e o lucro das vendas ficava com eles.

Entre essas duas imagens existe uma trajetória que passou por perdas familiares, trabalhos iniciados precocemente, vendas, combustíveis, caminhões, empresa própria e dezenas de imóveis.

Não houve uma linha reta entre uma coisa e outra.

O empresário que atualmente administra patrimônio imobiliário não começou a carreira planejando construir uma holding. Da mesma maneira, quando fundou a Petro Real, ainda não sabia que anos depois venderia sua frota e direcionaria recursos para outro setor.

O que permaneceu foi a disposição para negociar, acumular capital, identificar oportunidades e aceitar que uma estratégia pode precisar mudar quando o cenário também muda.

Aos 10 anos, isso significava voltar para casa depois de vender os doces produzidos pelo pai.

Quase quatro décadas depois, o tamanho dos ativos mudou. A lógica de fazer o recurso conquistado abrir caminho para o próximo passo continua reconhecível.

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