InícioColunasNem toda autoridade é...

Nem toda autoridade é a mesma, e ser reconhecida só como “a boa técnica” pode travar uma carreira

Para mulheres em cargos de alta liderança, ser lida pela forma errada de autoridade cobra caro. A consultora Tami Saito, fundadora do FlowScore, descreve quatro perfis e explica por que um deles quase sempre fica invisível.

Existe uma imagem confortável do que é ter autoridade. Alguém entra na sala, fala com segurança, conduz a conversa e parece ocupar mais espaço do que os outros. É um modelo tão reconhecível que acabamos confundindo visibilidade com autoridade, e presença com influência. Na prática, nem sempre é a pessoa que mais fala que muda o rumo de uma decisão.

Essa simplificação pesa mais sobre quem está no topo, e pesa de um jeito particular sobre as mulheres em cargos de alta senioridade. Não porque exista uma forma feminina de liderar, mas porque a mesma profissional pode ser lida de maneiras muito diferentes dependendo de como a autoridade dela fica visível. Uma executiva pode ser reconhecida pela profundidade técnica, pela qualidade das decisões, pela capacidade de mobilizar pessoas ou pelo que constrói e que continua funcionando sem ela. Tudo isso é autoridade. O mercado é que nem sempre dá o mesmo nome, nem o mesmo peso, a cada uma dessas formas.

É esse descompasso que a consultora Tami Saito, fundadora do FlowScore e integrante do Forbes Coaches Council e do Institute of Coaching, afiliado à McLean/Harvard, estuda no trabalho com lideranças. Para ela, o erro mais comum é tratar autoridade como personalidade, como se fosse uma questão de ser mais extrovertida, assertiva ou carismática.

“Gosto menos da pergunta ‘qual é o seu estilo de liderança?’ e mais de outra: de onde vem a autoridade que as pessoas reconhecem em você?”, afirma Tami Saito.

Arquivo pessoal

A consultora Tami Saito, fundadora do FlowScore

Há um dado que ajuda a mudar o eixo da conversa. Segundo o relatório Women in the Workplace 2025, da McKinsey e da LeanIn.Org, entre profissionais em nível sênior, 82% das mulheres disseram se sentir seguras para assumir riscos e cometer erros, contra 78% dos homens no mesmo nível. E 88% afirmaram se sentir confortáveis em discordar, ante 83% dos homens. Os números não provam que mulheres lideram melhor, mas indicam uma coisa útil: no topo, o problema não é falta de assertividade. A questão passa a ser outra, a de como essa autoridade que já existe é reconhecida, nomeada e convertida em valor.

Quatro formas de autoridade

A partir do que observa nas trajetórias que acompanha, Tami Saito descreve quatro perfis. Ela faz questão de dizer que não são tipos de personalidade nem categorias fechadas, e sim lentes para enxergar como diferentes formas de autoridade aparecem, e onde costumam ser subestimadas.

A primeira é a Especialista de Referência, que constrói autoridade pela profundidade. É quem se procura quando o problema ficou difícil demais para resposta genérica. O risco, nesse caso, é o mercado mantê-la no rótulo de “excelente técnica” e nunca traduzir essa profundidade em poder de decisão ou território próprio.

A segunda é a Estrategista de Decisão, reconhecida por reduzir complexidade e criar direção quando há variáveis demais. A autoridade dela cresce em crises e transições. O risco aqui é essa força ficar emprestada pelo cargo: enquanto existe a cadeira, todos reconhecem a estrategista; quando a cadeira muda, o mercado precisa reaprender a enxergar a competência sem o organograma em volta.

A terceira é a Articuladora de Confiança, que produz movimento por meio de relações. Não é networking no sentido raso, e sim confiança acumulada ao longo do tempo, a ponto de uma recomendação dela abrir portas. Por circular de maneira informal, é das autoridades mais poderosas e, ao mesmo tempo, mais subestimadas. Quando ninguém consegue mostrar o que aquela rede mobiliza, a influência acaba confundida com mera sociabilidade.

A quarta é a Arquiteta de Legado, que transforma o que sabe em algo que continua funcionando depois que ela sai da sala. Cria métodos, forma pessoas, organiza sistemas. O risco, para esse perfil, é passar anos construindo patrimônio para a empresa sem perceber que parte disso também deveria contar como patrimônio da própria carreira.

Para Tami Saito, o problema aparece quando o mercado reconhece só um desses retratos. Aí a profissional começa a compensar: a especialista tenta parecer mais expansiva, a articuladora vive provando competência técnica, a estrategista aumenta a exposição para não desaparecer.

“Quando o mercado só reconhece um tipo de autoridade, a pessoa começa a compensar o tempo todo, e o resultado costuma ser mais esforço, não mais reconhecimento. Em uma carreira madura, esforço adicional não deveria ser a principal forma de valorização”, diz Tami Saito.

O ponto que ela defende é que autoridade deixa de ser percepção quando se torna mensurável, e é aí que entra o trabalho do FlowScore, voltado a tornar mais objetiva a leitura desse capital que sustenta a posição de uma liderança. Medir, no raciocínio dela, serve para que a autoridade não fique presa à interpretação mais fácil: a especialista deixa de ser só “muito boa no que faz”, e a articuladora passa a enxergar o peso econômico da confiança que acumulou.

No fim, diz Tami Saito, uma carreira longa raramente cabe em um perfil só, e os quatro podem aparecer em momentos diferentes. O que importa é saber qual deles o mercado reconhece hoje, e qual segue invisível mesmo depois de anos de construção. Ela resume o teste em uma pergunta:

“Se o seu cargo desaparecesse amanhã, qual forma de autoridade continuaria funcionando, e qual você descobriria que ainda era emprestada pela estrutura?”

Popular

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Leia mais

OMS aponta avanço histórico no combate a doenças tropicais negligenciadas

Relatório cita países lusófonos ao celebrar virada na saúde global; de...

Valor Mortis serve um soulslike com sabor de novidade

Lançamentos de games em NOVEMBRO de 2026 - Calendário VOXL13:11Além do...

NASA divulga mosaico formado por 1 milhão de imagens do espaço feitas pelo Swift

A NASA divulgou um mosaico formado por cerca de um milhão...