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Ser bom tecnicamente já não é suficiente: por que profissionais competentes continuam invisíveis

Pesquisa sobre liderança e trajetória profissional reforça a importância da presença, da comunicação e da capacidade de ser lembrado em momentos decisivos da carreira

Durante quase duas décadas, uma frase se repete entre profissionais considerados competentes, inteligentes e com currículos impecáveis: “eu só preciso fazer um bom trabalho, o resto não importa”. A ideia parece simples e confortável, mas, na prática, nem sempre corresponde à realidade do mercado profissional.

A experiência de profissionais de diferentes áreas mostra que competência técnica, embora fundamental, não é necessariamente suficiente para determinar quem terá mais oportunidades de crescimento. Em muitos casos, a capacidade de se comunicar, transmitir confiança e construir uma presença profissional reconhecida também pode influenciar diretamente a trajetória de carreira.

Um estudo publicado em 2014 por Sylvia Ann Hewlett ajuda a explicar esse fenômeno. A pesquisadora ouviu milhares de executivos seniores para entender por que, entre dois profissionais com níveis semelhantes de competência, um consegue avançar na carreira enquanto o outro permanece estagnado.

A resposta apontada pela pesquisa não estava exclusivamente na capacidade técnica. Entre os fatores de maior peso estava aquilo que Hewlett definiu como “gravitas”, conceito relacionado à presença profissional, à forma como uma pessoa se comunica e à percepção que transmite aos demais.

Dez anos depois, em 2024, a pesquisa foi repetida. O resultado, segundo a análise apresentada por Daniella De Caprio, permaneceu praticamente o mesmo: a gravitas continuou tendo um peso expressivo na decisão sobre quem avança profissionalmente.

O dado chama atenção porque coloca em perspectiva uma ideia bastante difundida no ambiente de trabalho: a de que o melhor profissional será naturalmente reconhecido.

Competência sem visibilidade

A questão, porém, vai além dos resultados de uma pesquisa. Na prática, situações semelhantes podem ser observadas no cotidiano de empresas e organizações.

Um profissional pode ser extremamente preparado, dominar sua área e apresentar resultados consistentes, mas ainda assim não ser lembrado quando surge um projeto importante ou uma oportunidade de crescimento.

Nesse cenário, o problema não necessariamente está na falta de competência. Está na falta de visibilidade.

Essa visibilidade, no entanto, não deve ser confundida com exposição pessoal ou com a necessidade de estar constantemente aparecendo nas redes sociais. O conceito apresentado por Daniella De Caprio está relacionado a outra dimensão: ser reconhecido pelo que se pensa, pelo conhecimento que possui e pela contribuição que pode oferecer.

Na prática, significa ser a pessoa que vem à mente de quem está tomando uma decisão quando surge um determinado problema ou oportunidade.

É uma construção gradual, que envolve comunicação e presença profissional. O problema é que, para muitos profissionais, essas questões acabam sendo tratadas como algo secundário, reservado para quando houver tempo disponível.

Mas esse tempo raramente sobra.

Quando o profissional preparado não é lembrado

É justamente nesse ponto que surge um dos principais paradoxos da carreira profissional: a pessoa mais preparada de uma sala pode continuar sendo a mais invisível.

Durante anos, Daniella De Caprio acompanhou situações desse tipo e ouviu profissionais talentosos fazendo praticamente a mesma pergunta, em diferentes momentos e circunstâncias: “por que não me chamaram, se eu era o mais preparado?”.

A pergunta revela uma frustração comum entre profissionais que acreditam que a qualidade do trabalho deveria falar por si só.

A experiência acumulada ao longo de quase vinte anos, entretanto, levou a autora a uma conclusão diferente. Em muitos desses casos, não faltava preparo. O que faltava era reconhecimento suficiente para que aquela pessoa fosse lembrada justamente quando surgisse uma oportunidade.

A diferença pode parecer sutil, mas tem consequências importantes.

Ser tecnicamente competente significa estar preparado para executar uma determinada função ou resolver determinado problema. Ser reconhecido por essa competência significa fazer com que outras pessoas saibam disso e associem aquele conhecimento ao seu nome.

Comunicação como parte da carreira

A comunicação, nesse contexto, deixa de ser apenas uma habilidade complementar e passa a fazer parte da própria construção profissional.

Isso não significa abandonar a competência técnica ou substituir resultados por autopromoção. Pelo contrário. A capacidade técnica continua sendo a base. A questão é fazer com que essa capacidade seja percebida e lembrada por quem participa das decisões.

A visibilidade profissional, portanto, não está necessariamente relacionada a falar mais, aparecer mais ou buscar exposição a qualquer custo. Ela está ligada à construção de uma reputação associada a determinados conhecimentos, ideias e capacidades.

Ao longo do tempo, essa percepção pode fazer com que um profissional seja procurado quando determinada necessidade surge.

É nesse contexto que Daniella De Caprio apresenta seu novo livro, “Visível — Os 7 Códigos para Nunca Mais Ser Ignorado”.

A obra nasceu justamente da recorrência da pergunta que a autora ouviu durante anos de profissionais talentosos: por que alguém que estava preparado não foi chamado?

A resposta encontrada por ela a partir dessa experiência é direta: muitas vezes, não faltou preparo. Faltou ser lembrado na hora certa.

Do preparo ao reconhecimento

Daniella De Caprio é jornalista e possui quase duas décadas de experiência em comunicação corporativa e estratégica na América Latina. Além de “Visível — Os 7 Códigos para Nunca Mais Ser Ignorado”, é autora do livro “Método CEO”.

Sua reflexão parte de uma constatação que atravessa diferentes ambientes profissionais: fazer um bom trabalho continua sendo indispensável, mas depender exclusivamente da qualidade técnica para ser reconhecido pode deixar profissionais altamente capacitados fora do radar justamente quando surgem as melhores oportunidades.

A discussão, portanto, não é sobre escolher entre competência e visibilidade. É sobre compreender que, em determinados contextos profissionais, uma precisa caminhar ao lado da outra.

A competência é o que sustenta o trabalho. A visibilidade ajuda a garantir que essa competência seja reconhecida, associada a uma pessoa e lembrada no momento em que uma decisão precisa ser tomada.

Para profissionais que passam anos investindo em conhecimento, formação e experiência, essa pode ser uma das questões mais difíceis de aceitar: ser bom no que faz é fundamental, mas nem sempre é suficiente para garantir que os outros saibam disso.

E, quando uma oportunidade aparece, pode não vencer necessariamente quem é menos preparado. Pode simplesmente ser escolhido quem foi lembrado.

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