Tecidos de fígado e rim são bioimpressos no espaço – 09/07/2026 – Ciência

Uma empresa de biotecnologia americana afirma ter utilizado com sucesso uma bioimpressora 3D a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) para fabricar estruturas contendo células humanas de fígado, rim e cartilagem. Esse passo, segundo ela, pode um dia auxiliar na produção de tecidos transplantáveis em órbita.

Sediada na cidade de San Diego, no Estados Unidos, a Auxilium Biotechnologies disse que uma missão recentemente concluída marcou a primeira vez que tecidos de fígado e rim foram bioimpressos no espaço.

O trabalho foi realizado com base em células fornecidas por pesquisadores da Universidade Wake Forest (EUA), de acordo com Jacob Koffler, cofundador da Auxilium e pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego.

Os experimentos eram voltados a um obstáculo que tem desafiado engenheiros de tecidos: controlar a distribuição precisa de células dentro de uma estrutura tridimensional. Se certos tipos de células se agrupam nos lugares errados ou ficam distribuídas de forma desigual, o tecido pode não funcionar corretamente.

Nos órgãos, as células são organizadas em locais muito específicos. Mas os cientistas ainda não encontraram um método que dê a eles controle total sobre onde as células ficam localizadas, disse Koffler. Já na microgravidade, segundo ele, isso se torna possível.

A Auxilium enviou uma bioimpressora 3D para a estação espacial em 2024. Seu objetivo original era aprimorar implantes de reparação nervosa, segundo Koffler. A empresa tem versões desses implantes em testes clínicos.

A empresa queria conseguir distribuir uniformemente partículas contendo medicamentos nesses implantes, para que os nervos em regeneração recebessem exposição contínua a compostos que promovem a cicatrização. Como as partículas do medicamento afundam sob a gravidade, a Auxilium recorreu à estação espacial, onde a microgravidade poderia permitir uma distribuição e posicionamento mais uniformes.

Na missão mais recente, a Auxilium enviou biotintas ao espaço que expandiriam suas capacidades para a impressão de tecidos, de acordo com Koffler.

Observando da Terra por meio de câmeras na estação espacial, a equipe de Koffler conseguiu enviar novas instruções para a impressora conforme necessário.

Os tecidos de fígado e rim criados na ISS retornaram à Terra há cerca de duas semanas e estão sendo analisados, segundo ele.

“A distribuição celular uniforme alcançada a bordo da estação espacial aponta para possibilidades reais de fabricação de dispositivos médicos e tecidos no espaço”, afirmou Anthony Atala, do Instituto Wake Forest de Medicina Regenerativa, cuja equipe forneceu as células de fígado e rim.

As estruturas impressas não são órgãos funcionais. Antes de os cientistas tentarem criar órgãos de substituição completos por meio da bioimpressão, Koffler espera que o campo se concentre em pequenos fragmentos de tecido que possam ajudar a reparar órgãos danificados, como o fígado.

O trabalho também destaca o crescente interesse na fabricação comercial no espaço, à medida que a Nasa se prepara para a aposentadoria da Estação Espacial Internacional. A Auxilium assinou acordos com empresas que estão desenvolvendo estações espaciais comerciais e outras plataformas orbitais destinadas a suceder a ISS, disse Koffler.

Produtos médicos fabricados no espaço ainda estão a anos de distância do uso clínico. Os caminhos regulatórios estão apenas começando a tomar forma, de acordo com Koffler, acrescentando que participou de um workshop da FDA (agência que regulamenta e fiscaliza alimentos e remédios nos EUA) sobre biomanufatura espacial no início deste ano. “Vai levar alguns anos até chegarmos à clínica. Mas é importante começar a construir essa estrutura agora.”



Fonte UOL

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